35–52 | De qual palavra você precisa para viver? Eu preciso de DESCATEGORIZAÇÃO (porque sou, tanto quanto somos).

Marco, enxergamos o mundo em categorias. E isso não é uma escolha. Se você acreditasse em um Criador, qualquer um, eu lhe diria: Ele nos fez assim. Como você aceita um evolucionismo – perdão, nunca lembro qual deles –, digo-lhe: A necessidade nos fez assim. O melhor argumento evolucionista que já ouvi, Marco, veio do saber matuto de minha saudosa avó paterna: “A necessidade faz o sapo pular.” Aforismo digno de registro, quem sabe como epígrafe, em “A Origem das Espécies”. Se bem que vó Áurea também afirmava que “Deus não dá asas às cobras” e explicava: “pois aí elas só picariam o pescoço”.

Se, a cada vez que víssemos algo ou alguém, tivéssemos que nos lembrar em que categoria a coisa ou a não-coisa deveria estar, e, a partir daí, fizéssemos nossas avaliações e tomássemos decisões – inclusive a mais instintiva de todas: fugir ou lutar – certamente não teríamos sobrevivido como espécie. Entretanto, agora, essa ferramenta do inconsciente precisa de ajustes conscientes.

Por exemplo, não podemos mais olhar um indivíduo e vermos exclusivamente a categoria em que foi catalogado e arquivado pelo senso comum, que raramente tem a ver com bom senso, reforçado por alguma experiência com outro que não o indivíduo em questão. A categorização despersonaliza, generaliza e polariza transformando, para o bem ou para o mal, aquele cara com quem cruzamos nas ruas da vida em um pacote (político, ideológico, afetivo, sexual, racial, étnico, ético, religioso, social, econômico, acadêmico, estético, cultural e profissional) pronto e acabado, muitas vezes, antes mesmo de nascer.

Marco, hoje você é um policial, ateu, homossexual e de direita (e, desde sempre, negro). Temos quase nada em comum e reconhecemos, com longas risadas, que não basta ser uma “metamorfose ambulante”, antes é preciso ser contraditório, “porque sou vasto”, como você gosta de citar. Entretanto, velho amigo, se agora visse você pela primeira vez, eu enxergaria você ou todos vocês?

D. Figueiredo | dercinei@email.com

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