Começo 2018 como comecei o ano 2000, com meu poeta preferido:

IMPERCEPTIVELMENTE*

Agora toda essa preocupação com o ano 2.000! Só pode ser a velha mania ou superstição da conta redonda.

Se vocês estão bem lembrados, ao aproximar-se o Ano Mil já se pensava que era o FIM DO MUNDO. Assim mesmo, com todas as letras maiúsculas. Tanto que, para adiantar serviço, muitos se mataram antes. Como exemplo, eis um ponto em que hoje todos estão concordes: o famoso Século XIX só foi terminar em 1914. E parece que o danado só começou depois da batalha de Waterloo…

Pois não é que uma dessas entrevistadoras veio indagar de mim um dia destes se estávamos no fim de uma Era?!

Não sou nenhum Nostradamus, de modo que vaticinei – menos obscuramente que este – que nunca se saberá, nunca se notará, nunca se verá o fim de coisa nenhuma.

E isto simplesmente porque a vida é contínua.

Não uma projeção imóvel de slides, mas o desenrolar de um filme em câmara lenta.

E a transformação da face do mundo é como a transformação da cara da gente, que muda tanto durante a vida – mas que, dia a dia, de ontem para hoje, de hoje para amanhã, sempre nos parece a mesma cara no espelho:

Deixemos, pois, o Ano Dois Mil chegar imperceptivelmente como um ano qualquer.

*Mário Quintana (1906–1994) em “A Vaca e o Hipogrifo” (1983).

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