Eu ia começar dizendo que tem um monte de gente lamentando o devastador incêndio no Museu Nacional, mas nunca se importou em visitá-lo. Entretanto, pensando bem, mesmo que você nunca tenha entrado no Museu, sua tristeza pode ser sincera e sua indignação pode ser justa. Eu nunca fui ao Museu do Louvre, e se a mesma devastação ocorresse lá eu também lamentaria.
A diferença é que tenho memórias afetivas ligadas ao Museu Nacional. Meus pais, mesmo sem qualquer formação cultural ou profunda educação formal, sabiam ser fundamental que seus filhos frequentassem museus. Quantas vezes visitamos o Museu Nacional e depois nos sentamos nos gramados da Quinta da Boa Vista para celebrarmos um piquenique familiar.
(Sou nascido e criado em Igrejas Batistas, mas minha primeira impressão de estar em um espaço sagrado se deu no Museu Nacional. Museus, assim como Bibliotecas, são Templos. Neles os saberes são abrigados, aprofundados e difundidos. Neles as artes, a história e a ciência são reverenciadas. Afinal, a reverência não é feita de assombro, encantamento, admiração, paixão e reflexão?)
Só que o Museu Nacional não guardava as minhas lembranças, e sim as nossas. Não eram 200 anos de histórias, eram incontáveis memórias. É como se a casa da nossa família pegasse fogo e tudo o que registra quem fomos e quem somos virasse cinza. A próxima geração nascerá com amnésia. Se um povo que não conhece seu passado está condenado a repeti-lo, imagine um que, ativa ou passivamente, o queima?
Sou torcedor do Mengão, e um profundo apreciador do esporte bretão. Contudo é triste constatar que tratamos os estádios de futebol como templos, e não os museus. Que nos contentemos com o panem et circenses de nossos césares políticos, religiosos e econômicos. E é devastador – como o fogo que tem consumido museus pelo Brasil afora não é de hoje – suspeitar que, ou somos piromaníacos, ou só maníacos mesmo.
