Dear White People: reflexões sobre militância e expectativas

Aviso: contém spoilers.

A vida de todo mundo está sob constante escrutínio e expectativas alheias — uma equação que não exime ninguém de julgar ou ser julgada(o) pelos outros, de acordo com a fita métrica que cada pessoa tem.

As redes sociais tornaram isso muito mais fácil, uma vez que compartilhamos e acompanhamos com a mesma intensidade momentos da vida de semi-conhecidos e de nossos amigos. Porém, bem anteriormente à digitalização massificada, alguns grupos já corriam o risco de ter sua intimidade revirada. São “alvos” historicamente mais fáceis de se tornar o epicentro das frustrações alheias; como as mulheres, por exemplo.

Envolver-se com movimentos sociais também te coloca na berlinda como um alvo fácil. “Ah, mas então tu és contra o capitalismo, mas tens esse iPhone? E por que tu comes no McDonalds? E como tu trabalhas nessa corporação X, que vai contra tudo o que tu acreditas?”

Em geral, o objetivo dessas perguntas não é realmente saber que tu não pretendes jogar fora todas as tecnologias para ter uma sociedade mais igualitária; ou que tu estavas com fome ué; ou que tu precisas aceitar empregos para pagar as contas e sobreviver. O objetivo é só deslegitimizar, anular o teu discurso em detrimento da tua prática, e te responsabilizar por coisas que estão além do teu controle.

Em resumo, te fazer se sentir impotente.

Alguns dos personagens de Dear White People refletem esses questionamentos de coerência, mas com uma outra roupagem: “Como assim você faz parte de um grupo socialmente oprimido e não é militante? Mas como assim tu estás me exigindo militância? Como assim tu namoras alguém que faz parte de um grupo que socialmente e historicamente nos oprime?

Com todas as suas contradições, Coco, Troy e Sam já foram alguém que tu conheceste dentro dos movimentos sociais. Talvez seus amigos, ou mesmo tu, eu. Afinal, como estar livre dessas questões em uma realidade talhada no absurdo?

Pessoalmente, acho que levamos ao pé da letra demais o pensamento de que o pessoal é político.

Nas redes sociais, isso se amplifica de novo. Já vi pessoas com algum tipo de visibilidade reclamando por serem tratadas como domínio público. Volta e meia surgem julgamentos abertos de quem é militante de verdade, quem deveria ser mais, quem não tem propriedade para falar porque trabalha em lugar X ou não estudou em local Y.

O aplicativo fictício Woke or Not — que elegeu Sam a “maior” militante do campus — não tinha mais ou menos essa finalidade? (Reggie até disse que a tiraria do primeiro lugar. Mas que competição é essa?)

Que atire a primeira pedra quem nunca esteve de algum dos lados da discussão, juízes e réus.

Estamos tão acostumados com essa estrutura, que projetamos sentimentos em indivíduos, passíveis de falhas, e gastamos tempo com cobranças, sem nos importar com contextos. Desumanizamos através da idolatração.

Tudo isso porque acreditamos demais no poder individual. E não é que ele não exista. Mas e o poder do coletivo?

Talvez isso deságue no meu incômodo de ver a Sam tida como a responsável pelo protesto. Pode-se argumentar a questão de recurso narrativo (o arquétipo do Herói), mas ainda vejo essa postura como recorrente: achar que temos a obrigação de, sozinhas, mobilizar e resolver coisas. Apenas para depois sermos cobradas novamente.

Mas talvez essa parte seja assunto para outro momento.