O problema da palavra “tribo”

É só prestar atenção em como a palavra “tribo” é usada. E não falo de quando ela designa grupos de pessoas com afinidades, como acontece com as tribos urbanas, que funcionam como nichos de consumos. Aliás, até aí o substantivo já se tornou composto, porque a palavra sozinha sustenta outra ideia.

“Tribo”, em geral, descreve povos que, sob o olhar contemporâneo e ocidental, ficaram no passado. Existe uma superioridade intrínseca no seu uso, de uma narrativa com a qual nos acostumamos, e a normalização desse discurso torna o seu juízo de valor quase imperceptível.

Na mídia, quando se fala de “tribos de índios”, por exemplo, é para mostrar aqueles que foram dizimados, ou que são primitivos e pararam no tempo em uma suposta linha evolutiva. Grupos de pessoas que vivem isoladas e só podem ser vistas como selvagens ou animais em extinção.

Com que frequência sociedades europeias são chamadas de “tribos”?

Silenciosamente, o uso dessa palavra reforça a percepção de que indígenas são um subgrupo de pessoas. Um pensamento que não se baseia em novidade alguma, e que apenas pavimentou o caminho, há séculos atrás, de que havia justificativa para violência e escravização dos colonizadores que chegaram aqui.

O que surpreende, no entanto, é como essa noção perdura até hoje.

O escritor Daniel Munduruku ressalta que tanto o uso de “tribo” como de “índio” são incorretas, carregadas de estigma e de preconceito — afinal, para indígenas “a identidade é revelada pelo lugar onde pertencem”.

No imaginário popular, o “índio” é uma figura uniforme no Brasil inteiro: possui uma determinada aparência, não sabe falar a língua portuguesa direito e anda nu, ou só de tanguinha — tudo um indicativo da sua selvageria. Sem contar que essa palavra é errada desde que os colonizadores pisaram aqui. Quem lembra que os portugueses acharam estar na Índia e, portanto, resolveram chamar de índios os habitantes daqui?

“Índio” também não traduz a diversidade entre os povos indígenas, onde cada nação possui seus próprios costumes e crenças, e habitam diferentes lugares dessa extensão territorial conhecida como Brasil.

Indígena Xingu — foto por Thiago Gomes / Ag. Pará

Então por que insistimos em falar dessa maneira? Parece bobagem, mas nossas palavras podem ou não dão continuidade a histórias discriminatórias e etnocentristas.

Não se deve perder de vista que os povos indígenas funcionam como nações, no sentido de que possuem autonomia sobre os seus costumes, práticas e funcionamentos — ou ao menos deveria ser assim, como é garantido por lei e pela constituição brasileira. Portanto, o ideal é sempre se referir ao indígena pelo nome de seu povo.

Então, e se no lugar de dizer “comprei esse artesanato de um índio”, tu te preocupares em perguntar a nação a que ele pertence? E assim poder dizer “Comprei esse artesanato de um Xukuru/Satere Mawe/Tupinambá.”

Que tal, em vez de falar da “tribo Yanomami?”, falar “do povo/a nação Yanomami”? Ou ainda, apenas “os Yanomami”?