Por todas as vezes que glamourizei a minha raiva

“Se você não está com raiva, não está prestando atenção.”

Lembro da primeira vez que li essa frase como se fosse hoje — lembro do estalo que me deu, de algo dentro de mim concordando com veemência, como quem diz “ISSO. É ISSO MESMO.” Era por isso que eu sentia tanta raiva: eu sabia que havia coisas erradas ao meu redor. E em todo lugar. Não era da minha cabeça.

Eu devia ter uns 16 anos e, ali, a raiva era o meu motor. Eu devo admitir, gostava um pouco de senti-la. No fundo, acho que ainda gosto. Se enraivecer é uma maneira fácil de detectar que, porra, tu estás viva. É aquela indicação de que tu não se conformaste que “as coisas são assim mesmo” e “não adianta, nada vai mudar”. Tem uma coisa borbulhando dentro de ti.

E digamos que eu também cresci tendo uma mãe bem arretada.

Ao mesmo tempo, a adolescência é essa época meio cinza em que tu tentas se encontrar, enquanto as pessoas enfiam expectativas sobre ti goela abaixo. Não que isso mude muito depois, né.

Mas especialmente para uma mulher, raiva não é uma coisa que as pessoas querem que tu demonstres.

Das mulheres, é esperado sorriso, tranquilidade, voz mansa. Numa época de busca de identidade, nada como correr na direção contrária. Eu não queria ser doce e nem via motivo para sê-lo.

De lá para cá, me aproximei de discussões políticas e o tal sentimento continuou presente. A verdade é que ainda vejo essa fúria como motor. Que te leva a agir — com paixão, quase que animalescamente? sim — mas ainda assim, agir. A dar uns passos, quase que cegamente. Como quando a gente briga e, no momento de catarse, fala coisas por impulso.

O que eu levei mais tempo para perceber é que ela por si só não dá continuidade. Essa ira é uma explosão geradora, mas que não produz sem outro passo novamente ao estado da humanidade. Senão, se transforma em mesquinhez. Quantas vezes já não me peguei ou ouvi outros tão irritados com tudo que só conseguiam reagir com um “meu DEUS, cadê esse METEORO que não chega LOGO?”.

E numa sociedade onde as características ditas masculinas são tão valorizadas (como a agressividade) é fácil cair na armadilha de retroalimentar o que te faz sentir viva e ao mesmo tempo pode te consumir por inteira.

Não é que eu esteja tentando não sentir raiva — eu sei o quanto ela é legítima. Eu só quero estratégias de ação para além dela.

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