Querida pessoa branca: cocar não é acessório ou enfeite

Eu sei que desde a “comemoração” do “dia do índio” das escolas, essa indumentária é vista como um simples enfeite de papel. Um sinal, junto com as tinturas na cara e um arremedo de comportamento nativo, de que estávamos relembrando esse grande folclore que foi a existência dos indígenas.

Assim, no passado mesmo.

Tomorrowland Brasil

Sei também que nem a Xuxa, nem as aulas de história ajudaram a tirar essas impressões infantis — de que indígenas nem existem mais, e que seus símbolos podem ser transformados em fantasias ou simples acessórios. Afinal, qual o problema disso? Quem reclamaria disso?

Bom, eu sei que isso vai ser chocante, mas, contra todos os esforços desde 1500, os povos indígenas continuam existindo (licença para te lembrar que 305 etnias foram registradas no último censo no Brasil). E descontextualizar seus signos e diluí-los em uma cultura etnocida é apropriação cultural.

Por quê, cara pálida?

Indígenas Xavantes com vergonha alheia (Buzzfeed/Reprodução)

Porque cocar carrega significado. Cocar não é chapéu.

Cocar pode ser sinal de responsabilidade e respeito, com uso limitado a pessoas de certas posições sociais (por exemplo, caciques, tuxauas, pajés); pode ser parte de ritos de ligação com ancestrais e com a natureza; ou também de festividades daquele povo. Como indígenas não são uma massa homogênea, cada povo usa e confecciona adornos à sua maneira. Não existe um tipo de cocar universal, e eles podem identificar a nação a qual tal indígena pertence.

Cocar, para indígenas, é sinal de orgulho.

Usar um cocar enquanto fantasia, “recreação” ou enquanto não-indígena querendo “honrar” povos nativos faz justamente o oposto: desrespeita, banaliza e deslocaliza a história desses povos, que lutam para manter a sua cultura viva, mesmo com as intervenções externas. Além disso, transforma indígenas em um mito que se perdeu no passado, um aglomerado que pode ser reduzido a dois ou três símbolos.

E esse arremedo de cocar norteamericano no Tomorrowland Brasil?

O incômodo de grupos que detêm e deram seu significado não deveria ser o suficiente para que pessoas de fora desse grupo não o usem?

(Se a preocupação for mesmo honrar indígenas, existem outros apetrechos que não carregam tanta simbologia e que são confeccionados e comercializados por nativos, como brincos, colares, pulseiras, cachimbos e afins. Comprar diretamente desses povos é uma maneira de perpetuar a sua sobrevivência. Só não esqueça de se dar ao trabalho de saber de que etnia tu estás comprando.)

A insistência em usar um objeto sagrado de maneira “recreativa” e descontextualizada por puro desejo pessoal é apenas uma demonstração de poder.

Se nas ruas e festas de metrópoles, festivais de músicas ou fotos de redes sociais, o cocar te faz parecer uma pessoa “descolada”, longe desses espaços os indígenas que os usam com orgulho carregam um alvo em suas costas, que o Estado, interessado na sua morte e na morte de sua cultura, está de olho.