desalices
desalices
Jan 17, 2016 · 3 min read

precious illusions

Eu sempre tive uma propensão épica em me autosabotar. Na verdade o deboísmo tá longe de ser a corrente filosófica vertente em minha vida, meu egocentrismo é grande demais pra isso. E a psicose só ajuda e atrapalha.

Começou desde pequena. Sabe quando falam tão mal de você, te depreciam tanto e com tanta frequência que você acaba internalizando? Pois bem, isso aconteceu no final da minha infância e se tornou problema a adolescência toda. Freud explica. Demorei quase uma década pra me libertar de muita coisa, mas daí veio a vida adulta com traumas adultos e só piorou a bagunça toda.

Eu sou a pessoa mais insegura do mundo e não falo apenas por padrão de beleza. Isso é um trabalho árduo que já dura anos. Uma conquista diária me aceitar e me amar do jeito que sou — acreditem! Mas falo de um modo geral, em todos os aspectos eu sou assim e tenho plena consciência disso. Controle espero um dia ter. Alguns dias eu até tento até o primeiro resquício de insatisfação aparecer. E tudo desabar. E aquilo que eu havia construído durante um tempo ir se desfazendo feito castelo de areia.

É um tipo de narcisismo com reflexos díspares. Sinto necessidade de ver refletidas minhas eternas expectativas. A água pode ser até turva, desde que eu enxergue a verdade, um pouco de verdade, contornada com lápis caricatural, um borrão singelo, já é algo pra mim. Disse algo, algo não é suficiente. Há o movimento das águas e há o perfil fotogênico que sempre me favorece.

Não canso de abusar desses ângulos e me sirvo deles como um aleijado se segura em suas próprias muletas. A parte pelo todo pode ser a metáfora da vida, mesmo que a metonímia já esteja batida. Nem todas as arestas merecem aparos, elas necessitam de côncavos que se ajustem perfeitamente. É como aquela citação batida — perfeita — de Clarice, ‘cortar os defeitos pode ser perigoso, pois nunca sabemos qual é o defeito que sustenta nosso edifício inteiro’.

Tudo pode desabar, eu sei. E eu prefiro que desabe silenciosamente em mim antes que o barulho dos escombros assuste e estrague toda aquela metáfora perfeita que citei. Que me afaste do que eu mais amo.

Que eu cresça sem me tornar impermeável. Que eu fique forte, mas que não perca a vulnerabilidade de um sorriso sincero. Que eu me construa e me alicerce em mim mesma, mas que seja sempre aconchegante aos outros e ao entorno compartilhado. Que a clausura das ausências não deixe minha alma com cheiro de guarda-roupa. Que eu não perca a fé. Sobretudo em mim mesma.

Mesmo que os rios sequem ou apodreçam em lamas tóxicas, que os espelhos explodam em cacos envelhecidos pelo mundo, que eu não perca as referências do que sou. E talvez um dia esse meu potencial pra foder com as coisas cesse de vez ou se torne cada dia menos autodestrutivo.

Perdoem os espinhos em mim mesma. Não é questão de suportar o pior no outro e toda essa baboseira egocêntrica e pretensiosa. Às vezes tudo é uma questão de ponto de vista.

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Um plexo sem nexo.