O começo do fim

Pior do que terminar uma relação e perceber que já não amava mais a pessoa, é terminar uma relação e perceber que ainda ama. E não é qualquer tipo de amor. É daquele tipo que arde o peito, dói. Tipo do tal amor verdadeiro.

Faz pouco mais de um ano que comecei terapia. Neste tempo saí consideravelmente da depressão, arrumei um bom emprego, terminei um namoro falido, me arrisquei em um relacionamento inusitado; evoluí. Mas parece que algo que ainda não mudou e nunca vai mudar sou eu e meu jeito escroto de ser.

“Ah você não é escrota.” Sou sim. E muito.

Ok, admito que sou fofa, que sinto intensamente e faço de tudo para viver algo por mais imbecil e errado que pareça.
Ok, admito que isso não é ser escroto, mas também não está me fazendo ser alguém bom.

Sou filha única de pais separados. Desde pequena sou mimada, especialmente com coisas materiais. Armário cheio de vestidos, enfeites de cabelo, sapatinhos de boneca. Meu pai saiu de casa, a mesada entrou. Por parte de mãe, para dar a ela um pouco de paz; por parte de pai, para compensar a ausência dele no dia a dia. Não que crescer assim me tenha tornado folgada, exploradora ou algo do tipo. Pelo contrário, gosto muito de trabalhar e ganhar meu próprio dinheiro.

O que me falta mesmo é companhia, atenção. É alguém pra dividir as alegrias, as tristezas, as angústias. Um ombro amigo pra deitar e chorar, ou apenas deitar e dormir. Alguém pra conversar, abraçar, beijar, rir; tudo ao mesmo tempo. Fazer sexo com amor, e amor com sexo. Dormir virados e acordar entrelaçados. Alguém que não espere, que não tema; que tenha coragem e orgulho de mim e principalmente de si mesmo.

Estou pedindo demais, eu sei.
Perdão.

Diminuindo as expectativas, o que me falta? Falta uma voz amiga, perto ou longe, não importa. Ligações, fotos e notícias espontâneas, como se estivesse vivenciando aquilo na pele. Me falta conversa, troca de ideias e sentimentos. Cumplicidade, amizade, estabilidade. Apenas isso.

Não creio que seja muito, mas infelizmente parece que é.

Reclamona, insuficiente, insatisfeita. Sensível, carente, chorona. Ansiosa, sem paciência, grossa. Materialista, metida; escrota. Engraçado como estas palavras se misturam facilmente em meio aos “eu te amo”. E mais engraçado ainda é como eu sempre quero mais e mais “eu te amo”, e gasto todo meu amor como se fosse um cartão de crédito ilimitado… Bem que gostaria.

“Você não ama, você não demonstra amor, não sabe demonstrar”. Pior que sei, até demonstro, mas geralmente faço de forma escrota. Louca, doente, surtada, infantil, desequilibrada.

Eu sou tudo isso mesmo, e sempre serei.

Mil desculpas.

Eu te amo.

One clap, two clap, three clap, forty?

By clapping more or less, you can signal to us which stories really stand out.