CRÍTICA RETROATIVA: A Rainha — 2006

Elizabeth, Tony Blair, Lady Di e a modernização do direito divino

O milênio presenteou os cinéfilos com um universo inteiro de possibilidades narrativas, outrora previstas pelo que era ficção ou distopia futurista.

Poster preservatório

Deixando de lado a filosofia fantasiosa de Matrix (1999, irmãs Wachowski) que extremou in loco a revolução sócio-tecnológica, A Rainha (2006, Stephen Frears) rememora o caos imposto à uma instituição anciã e tradicional pelas novas dinâmicas sociais dos anos 2000.

A abordagem personalista e emocional que o filme assume, pertinente ao drama-biográfico, desvenda os olhares da Família real britânica para a morte precoce e trágica da Princesa Diana no ano de 1997. Sobre os olhares; Helen Mirren personifica a resiliência e firmeza da mais longeva rainha, Elizabeth II. Alex Jennings faz o Príncipe Charles ser empático por um olhar ressentido, que ao mesmo tempo o restringe a um pequeno príncipe.

Sheen ou Blair, não sei dizer

O contraponto à resistência ancestral do castelo está no efusivo e vanguardista recém nomeado primeiro-ministro Tony Blair, encarnado magistralmente por Michael Sheen. Aqui é importante ressaltar; a elencagem e caracterização estão impecáveis no que diz respeito à fidelidade aos personagens que vivenciaram essa história.

Quando Diana já se fora da Royal Family, levando toda a simpatia popular consigo, sua inesperada morte colocou uma pesada coroa em Elizabeth; a mídia. Justaposto, Lady Di foi uma das primeiras personalidades a ganhar status de hiper-celebridade, sempre cercada por flashs e assunto garantido em tabloides — fato tratado na cena de seu acidente.

Essas modernidades, no entanto, não faziam parte do feudo de preocupações da Rainha, atenta aos netos e em luto silencioso dentre os afazeres reais, como assinar um documento em condolência endereçado ao Brasil, pescar em família — real, ou o consagrado chá das cinco.

A Família

Retornando ao medievo, o diretor Stephen Frears coloca sutilmente — em linguagem sensível e um pouco simplória, como em Philomena (2013), a figura do cervo. O animal nobre por sua galhada é caçado, como tradição, pelos homens da família real — e talvez Príncipe Philip (James Cromwell) tenha sido o último desses. Para Elizabeth o cervo aparece em afago quando seu carro emperra numa estradinha. “Lindo”, naturalmente, ela define.

A metáfora é quase inconsciente para a Rainha sobre Diana, preservada no filme por imagens reais de entrevistas que acrescentam ar documental ao longa — ora nos fazendo pensar que as cenas em que Elizabeth aparece acordando ou vendo TV na sua cama são registros de um reality como The Osbournes ou o das Kardashians — com bem menos artifícios.

Concomitante à isso, as pressões de Blair, o homem de mídia e bem assessorado que entendia a importância da comunicação imediata e direta das instituições com o povo. Ele traça uma plano de ações para dissipar as desconfianças da população sobre a Família real; bandeira à meio mastro no Palácio de Buckingham, presença nas manifestações de luto e um pronunciamento convincente e pesaroso em televisão. Há, ainda, como terceira força o sofrido Charles que encoraja o novato Blair em suas ações, abrilhantando os olhos do prime minister com a sensação de verdadeiro poder decisório.

O êxito mais agradável de A Rainha é, portanto, a amálgama entre o tradicional e o moderno; Elizabeth e Tony Blair, o cervo e Diana, todos registrados em páginas e fotos de uma sociedade que precisa muito da satisfação daqueles que receberam o direito divino de serem famosos.

Hoje, com até mesmo o casamento do Príncipe Harry e Meghan Markle, é possível notar que não existe definição mais adequada.

A caça

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Andrei Felipe Martins

Written by

Em Jornalismo por fluência e Cinema por paixão. No café pelas xícaras e em RJ por SP. Vinte e 3.

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