Heróis do brainstorming

Como surgiram os personagens da MARVEL e DC que hoje dominam boa parte do cinema mundial

Alex Osborn, 1888 — 1966

O brainstorming se trata de uma atividade feita por duas ou mais pessoas onde as ideias são despejadas e exploradas sem modéstia ou timidez, findando em uma combinação dos melhores conceitos. A técnica foi desenvolvida pelo publicitário Alex Osborn.

A esmagadora maioria dos heróis foi criada por duplas dinâmicas de criação nos primórdios dos quadrinhos, muito presentes a partir de 1930. Superficialmente, se tratava de um roteirista e um desenhista. Entretanto, entre eles há o brainstorming. A troca de ideias foi determinante para criações eternas que, se fossem feitas por uma única mente, dificilmente ocorreriam de forma tão bem sucedida. Artistas como Stan Lee e Jack Kirby, Bill Finger e Bob Kane, Jerry Siegel e Joe Shuster, dentre tantos outros, uniram suas imaginações em discussões de múltiplas ideias a fim de chegar a definição perfeita para cada novo herói. É interessante observar a gênese desses personagens que estão em foco em tantas plataformas e possuem, hoje, como principal produto os filmes hollywoodianos.

Bill Finger e Bob Kane — Batman

Bob Kane

A dupla criou em 1939 o herói que, até hoje, angariou o maior número de fãs ao redor do globo. O homem-morcego foi concebido assim mesmo, meio homem, meio morcego, por Bob Kane. Ao mostrar para seu amigo Bill Finger a concepção do personagem e um esboço — que lembrava um lobisomem, os dois executaram o brainstorming. Kane criou o conceito ameaçador de algo que ele mesmo sentia medo, o nome e outros pequenos detalhes. A ideia monstruosa foi logo deixada de lado e migrou para um justiceiro mascarado com traje um tanto chamativo com tons vermelhos e asas grandes e rígidas. As alterações diretas de Finger foram a colocação de uma capa no lugar das asas, capuz ao invés da máscara e a adição de luvas. Finger também preferiu a predominância das cores preto e cinza em detrimento das partes coloridas do uniforme original de Kane, que lembravam o Superman.

A outra face do Batman, Bruce Wayne, também deve ser creditada a Bill Finger. “Bruce” se originou de Robert Bruce, o patriota escocês. “Wayne” surgiu por ser de ascendência nobre, como é o personagem. Finger, ainda, salientou seu traço detetivesco, o que se tornou sua maior característica, sendo alcunhado de “maior detetive do mundo”.

Uma breve curiosidade: Devido às práticas editoriais da DC na época, todas as histórias do Batman foram publicadas como sendo de autoria de Bob Kane (Kane apresentado o personagem sozinho, sendo o criador “oficial”), o que significava que Finger não recebia nenhum crédito por seu trabalho. Até a sua morte em 1974, ele não obteve o reconhecimento merecido. Finger deu origem a expressão fingered, que na indústria de quadradinhos significa que o autor não recebeu nenhum crédito por sua história. Hoje, em todas as produções que envolvam o Batman, Finger é devidamente creditado.

Steve Ditko e Stan Lee — Homem-Aranha

Lee na adaptação cinematográfica do Homem-Aranha, 2002

O já consagrado Stan Lee idealizou um personagem que tivesse como símbolo algo que, de imediato, não representasse grandiosidade e força. Stan diz ter pensado em muitos insetos até chegar a aranha. Após a iniciação do projeto, tendo já muitas das características aracnídeas do personagem; andar pelas paredes, disparo de teia (através de dispositivos; web-shotters) e capacidade cognitiva ao perigo, o “sentido-aranha”, além de super força e agilidade, costumeiras a heróis. Ao mostrar seu projeto para Steve Ditko, o Aranha cresceu bastante ganhando características psicológicas e sociais decisivas para ser o sucesso entre o público das histórias em quadrinho. Peter Parker se tornou um adolescente órfão, educado e criado pela sua Tia May e o seu Tio Ben, que tinha que lidar com as lutas diárias normais da sua idade, em adição aquelas que tem como combatente do crime mascarado.

Jerry Siegel e Joe Shuster — Superman

Siegel e Shuster

Foram colegas desde a escola e nutriam o gosto por ficções científicas. Na revista Science Fiction: The Advance Guard of Future Civilization, em 1932, lançaram a primeira versão do personagem Superman, então concebido como um vilão cujos poderes psíquicos foram usados para manipular outras pessoas e, coff-coff, dominar a humanidade.

“Super-man”, vilão

Nos anos seguintes Superman sofreria uma série de reformulações nas mãos dos dois autores -agora um herói sem uniforme elaborado o qual passariam a oferecer a diversas empresas, sempre com resultados negativos. Até que em 1938 a National Periodical Publications os convidou para contribuir com um novo personagem para a mais recente publicação, a Detective Comics. Eis, então, o Super como o conhecemos: um alienígena de forma humana com poderes que atuaria em benefício da Terra, agora com um uniforme que reunia elementos comuns para heróis da época, capa e collant completo. Logo em seu primeiro ano de publicação serial, 1938, Siegel e Shuster foram forçados a expandir o universo do herói para preencher a demanda que surgiu por esse recém criado ícone, em cores e em definição: com o Superman foi inaugurado o gênero de super-heróis. A dupla desenvolveu uma forte e grande mitologia que, por conseguinte, criou uma gama de novos personagens e influenciou todo o mercado até então dominado pelas histórias de faroeste ou de simples justiceiros.

Mulher-Maravilha — Um brainstorming inusitado

Uma das primeiras aparições da Maravilha, 1942

A criação da primeira super-heroína deve-se a uma pequena troca de ideias entre Dr. William Moulton Marston, dito criador, e sua esposa, Elizabeth Holloway Marston, contribuinte decisiva. William Moulton Marston, um psicólogo já famoso por inventar o polígrafo (precursor mecânico do laço mágico), teve a ideia para um tipo novo de super-herói, um que triunfaria não com punhos ou poderes, mas com amor. Elizabeth disse “Mas faça-lhe uma mulher.”

Os símbolos de amor, paz e justiça foram expressos na personagem através de seus equipamentos: o laço da verdade e os braceletes. O laço tem poderes que fazem o capturado por ele falar somente a verdade, representando um ideal de justiça sem necessariamente o uso da violência. Os braceletes servem de escudo estiloso que repelem qualquer ataque. São equipamentos que permitem avanço e cumprimento do heroismo dispensando a força.

Uma breve curiosidade: Moulton tinha quatro filhos e duas mulheres, ambas cultas e independentes. O trio vivia sob o mesmo teto, numa relação consensual. Ele incentivava tanto o movimento sufragista quanto o feminismo, considerando que as mulheres deveriam ser tão livres e independentes quanto quisessem, e deveriam ter a opção de continuar os estudos em universidades se assim o desejassem — o que era o caso de Elizabeth, que possuía três diplomas de nível superior, era mãe e trabalhadora. A situação poligâmica também envolvia Olive Byrne — outra mulher a inspirá-lo na criação da guerreira amazona e sobrinha de uma importante feminista do século 20, Margaret Sanger.

Quarteto Fantástico — Brainstorming inicial em um campo de golfe

Em 1961, o editor-chefe da Timely Comics (a editora precursora da Marvel), Martin Goodman, estava jogando uma partida de golfe com o editor rival Jack Liebowitz, da DC Comics. Liebowitz contou a Goodman sobre o sucesso que a DC estava a ter recentemente com a Liga da Justiça, um nova série que apresentava uma equipe formada por vários personagens de sucesso da editora.

Baseado nesta conversa, Goodman decidiu que sua companhia deveria começar a publicar a sua própria série sobre uma super-equipe. Stan Lee, que estava prestes a deixar a indústria assim que seu contrato acabasse, associou-se ao desenhista Jack Kirby para produzir uma revista inovadora. Através de muito trabalho de brainstorming a dupla decidiu as prioridades do novo projeto; unir a ideia de família aos super-heróis, com problemas, falhas, desentendimentos e humanidade. Assim criaram o Quarteto Fantástico, um grupo por vezes disfuncional e emocional, sem máscaras ou identidades secretas, sendo a “primeira família” da Marvel. O título ditou o modelo de herói que tornou-se o standard para a editora ao longo dos anos, graças à colaboração criativa de brainstorming entre Lee e Kirby.

Senhor Fantástico, Mulher-Invisível, Tocha-Humana e Coisa; o Quarteto Fantástico

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