mais um dos arquivos em .txt no desktop que eu já tinha esquecido que existem

tem algumas (muitas) noites que não durmo direito e já deveria estar acostumada. porque sempre fui de dormir demais ou dormir de menos; meu relógio biológico, assim como todo o resto de mim, não funciona de forma equilibrada. e as dores no corpo tomam conta e as pálpebras vivem pesadas e eu durmo pouquíssimas horas um sono pesado demais, tão pesado que mesmo acordada sinto-o forçando minha coluna.
eu já cansei de falar sobre isso. sobre o quanto eu não sei ser ponderada, sobre o quanto não sei viver com meios termos, não sei criá-los e nem conviver com eles. não os quero. deveria querer, deveria buscar o equilíbrio, mas também deveria parar de fumar, de cozinhar comidas elaboradas às três e meia da manhã e de tomar coca-cola como se fosse água. faz parte da minha pequena rotina de auto-destruição essa coisa de não saber ficar equilibrada e em paz. não tem graça a calmaria, e mesmo quando ela chega até mim, há algo aqui dentro — do meu cérebro, do coração, da alma, da porra que seja — que não a aceita e já que não encontra do lado de fora uma razão pra me deixar inquieta, busca isso aqui dentro. e, bom, o que não falta dentro de mim são motivos pra ficar inquieta. trauma é mato e insegurança brota feito erva daninha, mesmo quando eu tenho todo o trabalho do mundo pra manter a terra limpa. não importa o quanto você corte, pode achar que arrancou até a última pela raiz… sempre continua brotando. há algo aqui, talvez meu inconsciente, que não sabe viver em paz. acho até que não quer viver em paz e prefere o choro brotando do nada e a os ombros cansados de tentar dormir e não conseguir por causa do turbilhão de pensamentos. é que é muito fácil viver em paz. é tranquilo demais deitar a cabeça no travesseiro e cair no sono, e nós, eu e meu insconciente, nós não estamos acostumados com coisas fáceis. tem aquele ditado que diz que o que vem fácil, vai fácil. acho que nós acreditamos nisso e colocamos obstáculo em tudo como uma forma completamente torta de tentar mantar o que está bom no lugar. eu sei lidar com perdas, lidei com elas a vida toda. boa parte do meu medo é esse medo infantil de ser abandonada. tanto fui deixada que passei a ser a primeira a ir, antes de virar a criança chorando abraçada no ursinho. vou embora e deixo pra chorar onde ninguém vai ver. não por medo de demonstrar fraqueza, sequer acredito nessa bobagem. mas é que ninguém é obrigado. nossos traumas são problema nosso, afinal. e é muito bom ter alguém que queira lidar com eles, mas não é algo que eu quero me acostumar. é preciso ser sozinha, mesmo quando se está junto. porque, veja você, eu não sei por quanto tempo estarei junto. a gente espera pelo melhor mas sabe, bem no fundo, que as coisas boas não duram muito. pelo menos não duraram comigo. então é preciso nunca desaprender a ser sozinha, a lidar sozinha, a chorar sozinha, a cicatrizar as feridas sozinha. é sozinha que a gente nasce, é sozinha que a gente passa a maior parte da vida, e como diz aquele filme com o coelho que ninguém entende direito (mas que tem uma puta trilha sonora), todas as criaturas vivas morrem sozinhas. nós entre elas. e eu já perdi a conta de quantas vezes morri e voltei só nessa última semana.

Show your support

Clapping shows how much you appreciated bells delfiol’s story.