paz imensa.

vinte e oito de julho de dois mil e dezesseis e faz alguma temperatura entre 20 e 15 graus e não sinto frio mas fico coberta por causa daquela sensação infantil de que o edredom me protege dos monstros. às vezes também cubro minha cabeça com medo do que meus olhos possam enxergar no escuro mas a verdade é que meu maior medo mora dentro da minha cabeça. e talvez eu prefira acreditar em espírito e demônio porque tem fantasmas morando aqui dentro que sal grosso nenhum espanta e ritual nenhum vai exorcizar. é cada vez mais difícil ter um relacionamento minimamente saudável porque plantaram a doença dentro da minha cabeça e ela se espalha feito câncer sobre tudo o que eu toco. é cada vez mais difícil não chorar no meio da noite porque você dorme tranquilo mas e se você acordar amanhã e perceber o estrago dentro de mim e resolver sair pelo portão e pegar o B-19 pra não voltar mais? e é cada vez mais difícil não permitir que essas coisas tenham reflexos no meu modus operandi porque a cada dia que passa eu tenho medo porque os únicos anos que vivi ao lado de alguém foram de inferno. como posso, agora, ser digna de um espaço entre as nuvens? me convenceram de que não mereço ouvir fábio de carvalho repetidas vezes pensando no quanto você precisa ouvir essas músicas porque todas elas me soam como algo que você gostaria e faria. (e se você souber da invencibilidade da memória?) me convenceram de que devo me contentar com as migalhas. mas você, feito de pérolas, se atira pra mim, uma porca. dia após dia após dia após dia. e tem dias que me convenço que não sou porca, mas tem uma voz na minha cabeça que diz que sim. porca e imunda, duma sujeira que nem banho nem bucha podem tirar. e eu morro de medo de contaminar tua vida com meus dedos sujos porque você diz que não mas tudo no seu quarto é limpo demais. a cada sexta feira que você chega eu peço desculpas pela bagunça mas a verdade é que eu não consigo ajeitar as coisas e meu ascendente em virgem não é forte o bastante pra que eu me organize. mas a cada sexta feira você chega cansado e lava as louças enquanto eu faço arroz. e pergunta como foi meu dia mesmo sabendo que não tenho o que contar. e me ouve balbuciando como se ouvisse um poema épico sendo declamado. e eu sinto vontade de chorar e talvez você perceba mas isso não te incomoda nem por um instante. chego a sentir vontade de protestar mas nunca antes estive entre as nuvens. me contento em aceitar, mesmo sem merecer. amanhã é outro dia para achar que sou capaz de livrar você de mim.