Os 5 mitos do voluntariado
Dia 28 de agosto é o dia do voluntariado. Já tem alguns anos que mergulhei nesse universo e me revezo nos dois lados dessa moeda, vezes como voluntária, vezes como gestora de voluntários.
Voluntários são impressionantes, todo mundo sai de casa pelo ‘outro’, que muitas vezes nem conhecem. Estima-se um número de voluntários no brasil em cerca de 16,4 milhão, a mesma pesquisa aponta que 28% dos brasileiros já se engajaram em alguma forma de voluntariado pontual. Esse número cresce cada vez mais. Já tava na hora de ajudar o próximo passar a ser cool porque a transformação que queremos precisa de muitas mãos.
Mesmo o boom do voluntariado, ainda não conseguiu mudar alguns mitos:
1. Voluntariado é caridade
Às vezes sim e muitas vezes não. Esse mito tem raízes culturais bem brasileiras. Por aqui todo o serviço de assistência social era oferecido estritamente pela igreja desde a época da colônia. Tivemos os Jesuítas que se ocupavam da educação, por exemplo. E como ninguém queria saber dos “exilados sociais” a igreja ocupava-se desses cuidados.
Hoje em dia o cenário é um pouco (bastante) diferente, mas a crença e o próprio termo seguem parte do nosso dia a dia. “Fazer caridade” carrega um tom pejorativo e insinua uma posição hierárquica ou de privilégio, que não se traduz no voluntariado. Voluntariar é participar em uma troca e não uma ajuda unilateral.
2. Para voluntariar, é preciso abrir mão de muita coisa
Quem voluntaria não tem que ‘tirar do seu’ para dar pro próximo. Essa crença surge de uma matemática mental que fazemos quando acreditamos que os recursos são escassos e limitados. Inclusive recursos intangíveis como amor e energia. Isso não é verdade. Claro que muitas vezes o acesso aos bens e serviços é limitado sim, mas isso é uma construção social momentânea. Isso desperta um medo primitivo, relacionado ao nosso instinto de sobrevivência que acha que se você está dando algo agora, em algum momento vai faltar pra você ou para alguém. É o mesmo medo que nos diz para ‘guardar para dias difíceis’.
Na verdade, voluntariar é caminhar na direção oposta, é alinhar-se com a abundância, compartilhar com a certeza de que você tem mais do que suficiente. Abundância traz certeza e paz. Só sabe quem passa um domingo correndo de um lado pro outro, brincando em baixo do sol e volta pra casa com mais vida. Como assim, você deu e não saiu com menos? Isso mesmo!
3. O mito do mártir
Essa falácia é tão comum que deveria passar a ser abordada junto com o mito do herói ou a história de édipo. Muita gente ainda acredita que para fazer algo que realmente valha a pena ou que para doarem-se de verdade precisam sofrer. . Sair da nossa zona de conforto é uma coisa, muito recomendada aliás, agora o sofrimento é frequentemente desnecessário. Não traz mais valor para o seu trabalho e te desgasta em diversos níveis. Você tem permissão para ter prazer nessas atividades, ou procurar atividades que te dariam mais prazer, aliás você vai fazê-las de forma muito melhor se você gostar.Todo mundo pode ganhar. (qualquer dúvida referir-se ao n 2 )
Muito além do voluntariado essa praga se alastra pelo terceiro setor como um todo, nos salários abaixo do mercado, na desvalorização da sua gente e nos discursos vitimistas que se repetem ad eternum.
4. O voluntário que busca algum benefício é egoísta
Quando foi que ganhamos o direito de avaliar e julgar todo mundo? Não cabe a ninguém — ninguém mesmo — avaliar se o que motivou um voluntário é válido ou não e nenhum voluntário deveria sentir que precisa se explicar. O que move cada um a sair da sua zona de conforto é extremamente pessoal. Por isso mesmo existem diferentes formatos de voluntariado, de turismo voluntário, a voluntariado profissional — onde vc “trabalha” de graça mas enriquece seu currículo, atuações mais pontuais em mutirões ou ações específicas e até programas de apadrinhamento perene com uma série de compromissos. Existem muitas outras formas, e pode ser tão diverso quanto as pessoas que estão exercendo esses papéis.
Independente da sua escolha, o voluntariado nos ajuda a exercitar a humildade, estamos nos colocando a serviço do outro e saindo do protagonismo durante aquele tempo. Quantas vezes conseguimos isso no dia a dia?
5. Voluntariar é uma obrigação social
Pera aí! Por mais que eu compartilhe da visão de co-responsabilidade social e que devemos contribuir na criação do mundo que queremos, voluntariar é igual namoro. Ninguém pode estar ali obrigado, muito menos por culpa. Não pode ser um item a mais na sua lista de afazeres, tem que fazer sentido pra você. Não querer ou não estar a fim não faz de você uma má pessoa, existem diversas formas de contribuir positivamente a essa co criação, ativismo, atuação política, se informando sobre temas sociais relevantes e compartilhando com seus amigos e família ou mesmo doando para causas que acredita. Por isso é sempre importante poder “testar”, participar sem precisar assumir uma pilha de obrigações e compromissos logo de cara. Igual ao flerte antes do namoro oficial. TEM QUE QUERER e só quer quem conhece, quem sente. É importante que a instituição também conheça o voluntário, para conseguir avaliar, direcionar e se for o caso, até mesmo indicar para algum parceiro que estiver mais alinhado com o que ele busca.
Voluntariar não é nada disso, mas nem sempre te contam que realmente é: viciante e transformador. O número de pessoas que se envolvem com uma organização e depois com duas, três, de formas diferentes em momentos diferentes é surpreendente. Os espacinhos que encontramos na agenda para ajudar aqui ou alí se multiplicam mesmo. Já contei dos fatores biológicos que motivam essa compaixão, mas acho que vai muito além.
Se você ainda não tem -essa vontade toda- ou já tentou fazer alguma coisa que não te conquistou não se preocupe. Onde tem qualquer pingo de vontade tem jeito. Tem muito trabalho a ser feito em diversas frentes. Se atuar com crianças não te deixa muito confortável, pode tentar algo mais braçal como construir uma casa, se você ama rotina pode ajudar pessoas em situação de rua toda terça no seu bairro. O que não falta são oportunidades.
Respeite o seu tempo e experimente. Sempre penso em quantas pessoas marcaram a minha vida com uma coisa simples, e como elas provavelmente não sabiam na hora a magnitude do impacto das suas ações. Permita-se transformar e ser transformado. Uma vez em um treinamento, Dominic Barter me lembrou que o nosso trabalho ‘é urgente demais para ser feito com pressa’.
