Não vale se resignar

Aeroporto é sempre a mesma coisa: sai de casa duas horas antes do vôo. Não vai dar tempo de chegar. Chega e corre pro balcão da companhia pra fazer check-in. Não pode mais fazer check-in no balcão, tem que ir pra máquina. A máquina não funciona. Muda de máquina. Precisa do localizador da passagem. Não acha o localizador. Precisa do e-ticket. Não acha o e-ticket. Coloca nome e sobrenome. A máquina diz que você não existe. Como assim, eu não existo? Tenta de novo. Faz o check-in. Vai pra fila pra despachar a mala. Vai pra fila pra entrar na sala de embarque. Vai pra fila do embarque. Erra a fila. Acerta a fila. Entra no avião. Senta no meio. A pessoa do lado quer conversar. Você conversa sem querer. Turbulência. Amendoim. Barrinha de cereal. Descarga assustadora do banheiro. Aterrissa. Fila pra sair do avião. Fila pra pegar a bagagem. Pega a mala errada. Troca de mala. Pega a mala certa. Sai da sala de desembarque. Vai pra fila do táxi.

Normalmente, passo por todo esse processo com aparente paciência. Sem humor, confesso, mas paciente. Conheço gente que não pode pisar num aeroporto que automaticamente se torna um cavalo, seja com os atendentes, seja com quem está viajando junto. Na minha última viagem não mantive a compostura de sempre e, quando prestes a finalizar a via crucius de viajar de avião — é mentira aquilo que contam pra gente que avião é mais prático. É mais rápido, sim. Mas nunca prático — explodi em reação a um infeliz taxista no desembarque do Aeroporto de Congonhas, em São Paulo.

Cansado do processo todo de viagem, com uma vontade imensa de chegar em casa depois das tensas horas entre o sair de uma cidade e o chegar em outra, olhei para o lado e vi uma mulher chorando. Ela estava com um rapaz que tinha acabado de reencontrar o namorado. Pela intensidade dos beijos, carinhos e abraços dos dois, percebia-se que o casal não se via há muito tempo. A cena era bonita, comovente, aqueles três pareciam extremamente felizes em estarem juntos.

Observava quase indiscretamente, mas a cena era tão bonita que por um instante até me esqueci que ainda faltava todo um trajeto de táxi até a minha casa. Foi quando um taxista ilegal — faço questão — olhou para o casal, olhou pra mim e, claramente buscando aprovação, disparou: “Que nojo! Cruz credo!”

E como num passe de mágica, toda a beleza daquele momento desceu pelo ralo.

“Não tenho nojo de amor”, respondi. Ele era feio, sujo. “Amor é entre homem e mulher, isso aí é safadeza”, ele retrucou. “Amor é amor, meu amigo. Se você não vê ali, não sente”, eu falei. Meu irmão interveio: “O senhor não tem o direito de olhar pra gente e dizer cruz credo. Cruz credo o seu preconceito, a sua ignorância”. Minha namorada também não se conteve: “Aquilo ali é amor. O problema não é excesso, é falta. O senhor não tem amor”. Ele balbuciou mais alguns absurdos e saímos de perto antes que alguém perdesse a cabeça.

Ainda bem que os meninos não escutaram uma palavra sequer da discussão, apesar de estarem há poucos passos de nós. Estavam inebriados de emoção. Seguiram felizes e abraçados até o carro que os esperava e saíram dali, provavelmente pra ficarem juntos e mais felizes ainda. Ainda bem.

Aquele homem estragou o final do feriado. Não consegui parar de pensar um minuto naquela discussão. Não parei de me perguntar a razão daquilo, o porquê. Cheguei até a tentar aliviar a barra do cretino, imaginando que aquele comportamento talvez tivesse alguma relação com o meio em que vive, com a educação que teve. Mas não. Intolerantes são intolerantes e a razão disso não é importante. O importante é que essa gente seja combatida.

Como pode alguém ter a pretensão de achar que é digno pra julgar aquele casal? Como pôde aquele homem hostilizar uma manifestação tão bonita de carinho, de amor? E por que ele achou que poderia compartilhar comigo a sua indignação? E aí eu entendi.

Porque eu estava olhando fixamente para o casal. Com admiração. Com emoção, também. Mas o taxista ilegal não sabia disso. Viu, em mim, um cúmplice da sua indignação, da sua estranheza. Meu olhar fixado na felicidade daquela gente enviou uma outra mensagem para ele. A de que aquilo era estranho pra mim.

Percebi meu erro. Não deve chamar atenção um casal feliz. Não deve chamar atenção qualquer tipo de relação, seja ela feliz ou infeliz. Eu não devia ter olhado tanto para aqueles meninos..

É preciso tratar com naturalidade o que é natural. O estranhamento, na verdade, está dentro de nós.

E aquele taxista ilegal vai seguir sendo um imbecil enquanto tiver gente que concorde com os ‘cruz credo’ que ele venha a dizer novamente. É preciso responder essa gente.

Beijo, to indo pra outra festa

Gabriel Sant’Ana Wainer

Gabriel ainda não é jornalista, é publicitário fajuto (mas com diploma!) e ainda mora com os pais. Cada vez que alguém próximo morre, secretamente se apavora com a proximidade — irracional — da sua vez. É apaixonado quase patologicamente por comida — boa — e não entende porque engorda.

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