Maria Eduarda.
Jul 30, 2017 · 2 min read

O primeiro seria um erro se não fosse sobre você

Difícil falar de amor e dor e não lembrar o teu olhar cinzento.

Aquele que se fechou perante o meu.

Eu te culpei por ter me deixado.

De todos os meus dissabores, jamais pensei que fosses responsável pelo maior.

Por que tu me prometeu estar sempre ali

E de repente, já não estava.

A cadeira balançou com o vento

O radio não sintonizou

Os chinelos velhos foram encostados

A pilha de livro empoeirada e intocada

E maços de cigarro e incenso pela metade

Ecoavam e gritavam pelos cantos que, agora eu também era meia, saudade.

O cinzeiro permaneceu vazio

Não deixaste as tuas cinzas aparentes

E a casa pareceu insolita

Por muito tempo habitando apenas tua ausência e corpos semi mortos de esperança

Deixaste minha mae viuva

E eu órfã, até de mim.

Contracheques, recibos, fotos de um passado que não me pertenceu

Uma mala velha de pesca, bonés coloridos e cachaças ruins

E aquela merda de vazio que me encarava

De concreto, pra mim, só existia intacta a lembrança da penúltima chegada. Nela, tu me esperava.

No meio da rua

De olhos miúdos

E braços abertos

Que saudade, já disse que te amo hoje?

Na ultima, todos me esperavam menos você, que me aguardava em uma cama de hospital com seus poucos movimentos e, saliva suficiente só pra sussurrar o último amo você.

Nunca mais senti o amor entregue.

Rezei com força pra todos os deuses que me ensinou a respeitar, num emaranhado de fé e desespero, eu briguei, gritei, chorei. Ri de medo e angustia. Eu quis ir antes de ti porque meu amor só era amor por tua existência.

E sem ela, ninguém nunca mais me pos no colo e balançou, nem me cantarolou a velha guarda com a voz embargada de tristeza e gratidão. Ninguém mais foi cecido ao tempo assim, e num gole e outro, me fitou os olhos com amor e luz.

Ninguém mais transcendeu meu existir ao mesmo tempo me fazendo sentir, que tudo valeu o agora. Ninguém me fez acreditar no depois.

Ninguém disse que me ama hoje, pai

Por que aquela menina amada morreu no dia 11 de abril de 2012 as 23h05

Escorregando pela tua ultima lagrima

E renascendo depois, por enfim, te entender

Hoje não te culpo por ter ido

Mas por ter deixado em mim

A idéia de que transbordar é preciso

Por que tudo parece finito

E dói.

Não soube mais comedir meu olhar e minhas paixoes, por medo de acordar e ter que me reinventar

Outra vez

Do zero

Com a incerteza de ter questionado o bastante

Eu já disse que te amo hoje?

Vivo pra que sim.

    Maria Eduarda.

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