setembro amarelo

ontem à noite depois de uma palestra sobre suicídio, fiquei pensando (dentre muitas coisas) nessa ultima tatuagem. fiz ela há alguns meses atrás, quando eu mergulhei na minha bagunça e pensei que mais nenhum lugar me caberia, ou, eu fosse merecer.
não vou dar conta
não vou dar conta
não vou dar conta
horários, prazos, deveres, contas, cobranças, notas, metas, amigos, trabalhos, quase amores, inteiras dores
silencio. vazio. 
tumulto.
solidão
não vou dar conta.
cadê o meu desfecho?
será que me enterrei dentro de mim?
ou acabei morrendo aos poucos tentando viver?
pensamentos que sussurravam baixinho, mas elevados o suficiente pra despertar angustia, ansiedade e atitudes inconscientes que me distanciavam de mim e me entregavam ao medo.
meu desfecho naquele momento foram meus amigos. assim como em muitos outros. 
mas amigos que foram além das curtidas, compartilhamentos e “adições”. amigos que foram capazes de ler as legendas, as entrelinhas, os silêncios e principalmente, os momentos. pessoas que vi 5 segundos e senti carinho num sorriso que não estava direcionado a mim, mas que eu precisava ver. amigos que me sentaram na ponta de uma mesa e disseram: Chega. ou que seguraram o olhar no meu, por um tempo infinito, de amor, respeito e compreensão. se fizeram presentes.
assim comecei a re-construir mais um desfecho.

Mas minha perspectiva de desfecho ontem, mudou um tanto. Escutando os dados, os casos sobre VITIMAS da própria dor, percebi que o setembro amarelo existe por um motivo: evitar a busca desesperada e incalculavelmente sofrida por um desfecho imediato. a morte sendo sinônimo de solução.

Acredito que isso aconteça com um brasileiro a cada 40 minutos, MUITO porque a saúde mental ainda não foi compreendida.

A gente não costuma esconder uma dor de dente. Não tenta esquecer uma enxaqueca, uma febre ou ânsia, não esperamos que uma gripe se transforme em pneumonia pra buscar ajuda. A gente não convive com o medo de dizer que adoecemos e, não estamos bem porque nosso corpo não nos corresponde. Mas se a nossa mente adoece? Só pode ser loucura.

Ainda é loucura que a gente se sinta sozinho, pressionado, com medo. Ainda é loucura que a solitude engula. Ainda é bobagem que a gente não se sinta suficiente num mundo que cobra cada dia mais. Ainda é insano precisar do outro mesmo que a gente viva numa grande (e hipócrita) sociedade.
Infelizmente a gente se cala porque a dor fica insuportavelmente maior quando o outro não compreende, não respeita, ou ainda, nos fere com nosso próprio sofrimento.

Que todo mundo sente dor é fato, por vezes até, bonito, mas quando essa dor se transforma dentro da gente, nossa unica e concreta identidade, acordar passa a ser pungente. Viver? sob a ponta de uma faca afiada, que fere o nosso existir sempre que “não damos conta.”

Suicidios podem ser evitados. Temos o poder de largar a faca e fazer com que a dor possa ser sentida de maneira justa. A gente pode estar atento a nós e aos outros de forma simples, muito simples… desde que nosso olhar entenda que uma dor nunca é mais importante que outra.

Não é errado sentir.

Não é errado temer.

Não é errado sofrer.

Não é errado estar doente mentalmente porque todos somos, já fomos ou ainda seremos doentes.

Errado seria se nossa mente e alma não cansassem diante desse nosso caminhar descompassado, tentando desviar dos abismos que fugimos e das lutas que travamos todos os dias.

Se atente aos sinais. Ajude.

E que a gente possa ser abismo,

abismo de consciência, aconchego e ressignificação.

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