301 Picaretas

Um país mezzo dormente mezzo atônito aguarda o desfecho inevitável da votação que promete liberar o governo brasileiro para dar a marcha ré na história e gastar mais do que arrecada, fazendo déficit virar superávit numa canetada só. Vem então à memória a frase de um certo Luís Inácio Lula da Silva, em 1993: “Há no Congresso uma minoria que se preocupa e trabalha pelo país, mas há uma maioria de uns trezentos picaretas que defendem apenas seus próprios interesses”.

A frase, na época, repercutiu a ponto de inspirar um hit dos Paralamas. Uma música de protesto como há tempos não se fazia, e o sucesso veio na esteira do desencanto generalizado, mas também da esperança renovada dos carapintadas, e simbolizada na figura de Luis Inácio, promessa nunca realizada, mas sempre sonhada de um futuro líder, ético como nenhum até então.

Fast forward. 2014. O Senado Nacional se reúne, sob a liderança de Renan Calheiros (alguém em sã consciência vê mais dignidade neste senhor do que em João Alves e Humberto Lucena, personagens da música original?), para rasgar a Lei de Responsabilidade Fiscal, em nome de um governo que gastou muito mais do que arrecadou e “fez o diabo” para garantir desesperadamente uma reeleição. É Brasília mais uma vez fabricando sua própria lei. Luís Inácio falou. Luís Inácio avisou.

Em outro front, no Ceará, o Diretório Nacional do PT aplaude vigorosamente João Vaccari, seu tesoureiro, o segundo do partido acusado de desviar bilhões do patrimônio público para o próprio partido e para o bolso de um punhado de nababos. Delúbio, o antecessor, acabou de deixar a cadeia e está cumprindo a pena em prisão domiciliar. Também é visto pelos companheiros como um mártir, um herói. Na mesma reunião, o partido garante num documento que irá expulsar qualquer membro de seus quadros que tenha comprovadamente cometido atos de corrupção. Não detalha se isso se aplica ao próprio Delúbio, a Dirceu, a José Genoíno, condenados pelo Supremo Tribunal Federal. Não diz quando nem como. E não o faz por um motivo simples: é tudo de mentirinha. É como na Disneylândia. Luís Inácio falou. Luís Inácio avisou.

Agora o Ministro da Agricultura é acusado de envolvimento em fraudes de terras no Mato Grosso. Seus dois irmãos já haviam sido detidos por uma operação da Polícia Federal, e o envolvimento do próprio ministro era uma questão de tempo. E Dilma, poste supremo de Luís Inácio, segue em campanha, jurando que não sabia de nada (deve ser a líder mais enganada de toda a história republicana), e que “nunca antes na história do Brasil” se investigou e combateu tanto a corrupção, tentando transformar bandido em polícia com a mesma facilidade que pretende transformar despesa em receita. Luís Inácio falou. Luís Inácio avisou.

Luís Inácio bate todos os recordes quando o assunto é rasgar a própria biografia. Vê-lo pairar como um Deus abençoando o governo mais corrupto da história (em valores nominais não há mais margem pra debate) é assistir ao completo desrespeito a milhões que um dia enxergaram nele um possível líder, honesto, correto, reto. É triste ouvir seu discurso populista, suas mentiras, suas chantagens emocionais, suas piadas evasivas cada vez que se toca em uma de suas múltiplas feridas, como o enriquecimento suspeito de seu filho ou a morte de Celso Daniel. Imagino Herbert Vianna abrindo hoje o jornal. É, caro Herbert, complicado esse negócio de dar moral para um personagem público numa peça artística que ambiciona a longevidade, quiçá a eternidade. Na dúvida, fica a dica: escreva sobre alguém que já morreu. É mais seguro. Porque o tempo passa, a música fica, e o sujeito apodrece em vida, ou vai ver sempre foi podre e estava apenas desempenhando um papel. Vai saber. Seja como for, a consequência nefasta é que uma das melhores músicas de protesto dos últimos 30 anos apodrece junto com seu homenageado.

“Eu me vali deste discurso panfletário / Mas a minha burrice faz aniversário / Ao permitir que num país como o Brasil / Ainda se obrigue a votar por qualquer trocado / Por um par de sapatos, um saco de farinha /A nossa imensa massa de iletrados / Parabéns, coronéis, vocês venceram outra vez / O congresso continua a serviço de vocês”

Luís Inácio falou. Luís Inácio avisou.

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