A Navalha de Occam


Você já passou um sinal vermelho. Fala a verdade. Já trouxe umas muambinhas de Miami. Não? Nem umas comprinhas acima da cota, passando aquele medinho quando apertava o botãozinho da alfândega? Nunca? Ah, vá. Nunca pagou um despachante pra "agilizar um processo"? Vamos lá, na hora de prestar serviço militar, não tinha um amigo da tia que dava um jeito? Pode falar, não se acanhe. Não? Uma colinha mínima numa prova. Nunca?

Li alguns artigos nos últimos meses que sugeriam que, se você tivesse respondido sim a alguma das questões anteriores ou a alguma análoga a elas, estaria automaticamente eliminado do grupo apto a se enojar com o sistema de corrupção montado pelo governo recentemente reeleito pelo povo do nosso país. Será?

Corrupção, na definição mais pura da palavra, sempre existirá. Não se engane. Existe na Suécia, acredite. Existe em você, a não ser que você tenha passado ileso pelo teste do primeiro parágrafo, coisa que duvido. Existe no Brasil. E seguirá existindo.

O problema é que, mais uma vez, o grupo que nos (des)governa ensaia sua tradicional pantomima: a partir de um fato (o de que corrupção é um problema endêmico) eles se preparam pra justificar um crime sem precedentes na história do Brasil. Um crime, pela forma e extensão, inédito.

Porque o que estamos presenciando não é corrupção pura e simples. É um sistema. Um sistema antigo, aprimorado ao longo de décadas, treinado, validado, testado, aprovado, exercitado e incentivado. Um sistema que está inviabilizando o país.

A Navalha de Occam, princípio científico que dá nome a este texto, postula que "a explicação mais simples para um fenômeno é sempre a mais provável". William de Ockham, ou Occam, era um frade franciscano inglês no qual Umberto Eco se inspirou para escrever o excepcional "O Nome da Rosa". William entendia que traquitanas e explicações complexas normalmente eram distrações que nos afastavam da solução simples e pura que havia — e há — na raiz de cada enigma.

Pois bem. Poderíamos elencar todos os casos de tráfico de influência, desvio financeiro ou moral, roubo puro e simples, e toda sorte de crimes associados ao partido governista (muitos já provados e alguns condenados pela justiça), e atribuir, a cada um deles, uma explicação específica, complexa, detalhada. Pode ter certeza, uma boa parte do timesheet do time do Palácio do Planalto hoje se dedica a isso: explicar, explicar, explicar nos mínimos detalhes.

Ou podemos simplesmente abraçar a Navalha de Occam e esclarecer tudo em uma única frase: o mesmo sistema que sustentou alguns grupos de resistência ao governo militar nos anos 70 se deformou, se prostituiu, e hoje é o sustentáculo primordial do partido governista. Mais do que isso: se transforma, a cada dia, na base de funcionamento do Estado nacional. Até porque esse grupo claramente desconhece a diferença entre governo e Estado.

Quando um grupo guerrilheiro assaltava um banco em 1972, isso se chamava "expropriação". E não se chamava "assalto" por um motivo simples: o dinheiro obtido ali seria usado para financiar movimentos que lutavam contra um governo sanguinário que sitiava o país. Era uma guerra, e numa guerra mata-se e rouba-se se preciso for, contanto que o objetivo seja justo e digno. Numa guerra, o meio justifica o fim.

Vale dizer: ao contrário do que Dona Dilma e seu estudado arquétipo hollywoodiano "Coração Valente" fizeram crer, essa luta não foi exclusividade daqueles que hoje ocupam o Palácio do Planalto. Muitos que estão hoje na oposição, na imprensa, na sociedade civil organizada, fizeram parte dessa luta. E muitos morreram, foram torturados, perderam parceiros, filhos, pais, amores, vidas inteiras. A falácia de que o PT e seus aliados são os donos da luta contra a ditadura é um dos maiores crimes recentes do senhor Lula contra a História.

Mas a guerra acabou. Menos para o partido governista, que claramente montou um sistema assustadoramente capilarizado de "expropriações" para sustentar seu objetivo, seja ele lá qual for. Sabe quando caiu minha ficha, quando abracei a Navalha de Occam? Quando vi Genoíno entrar na cadeia aplaudido, com o punho cerrado pra cima, como um herói, como um mártir. Dilma e Lula jamais, sob nenhuma hipótese, sugeriram crítica a nenhum dos condenados do mensalão. William Bonner e Aécio bem que tentaram, mas nada. Ali ficou claro pra mim: parte deles não acredita estar roubando. Não é motivo de vergonha. É "expropriação revolucionária". Eles se orgulham disso. E aí, em português castiço, aí fudeu.

O problema não é apenas que a guerra acabou e eles não entenderam. O problema é que o sistema é uma caricatura, um pastiche do anterior. Em nome do tal "fim", que nem eles mesmos sabem qual é (há os que defendem um banqueiro pro BC e os que se sentam com as FARC, e todos entre esses dois que cabem no frouxíssimo espectro do PT), centenas enriquecem ilicitamente, dezenas de ministérios são criados apenas para sustentar o "movimento", juízes incompetentes e sub qualificados são nomeados (Toffoli, só pra dar um exemplo: foi advogado do PT durante 15 anos, reprovado duas vezes na prova para juiz, sem as mínimas qualificações acadêmicas que se espera de um ministro do Tribunal Superior Eleitoral), dezenas de milhares de militantes são empregados em cargos para os quais não tem competência, apenas para ajudar nas próximas eleições e, quem sabe, coisas piores que veremos pela frente.

O que pode ser pior do que isso? Voltemos rapidamente aos anos de chumbo. Quando um grupo revolucionário de resistência entendia que um de seus membros tinha se transformado num traidor, entrava em cena o mecanismo de "justiçamento revolucionário", que consistia em desligar o membro do grupo — e do planeta Terra — em defesa do movimento.

Pois bem, os arquivos apreendidos de Youssef retomaram um assunto pra lá de sensível, o maior fantasma da história do PT: a morte de Celso Daniel. Um dia falaremos disso com mais detalhes, mas se você não conhece o caso, um googlezinho será o suficiente pra te tirar o sono por uma semana. Aproveite e google também "Toninho do PT".

Enfim, a morte de Celso Daniel, prefeito de Santo André, envolvido em mais um propinoduto do PT, até hoje não tem explicação. Até porque é muito complicado explicar as oito mortes atreladas à do prefeito, e muito mais complicado ainda explicar porque o governo Lula abandonou Celso, seu antigo coordenador de campanha, e não apenas não insiste na investigação do caso como evita o assunto a qualquer custo. Tudo muito difícil de explicar. William de Ockham discordaria.

Sim, já vimos escândalos. Inúmeros. Federais, estaduais, municipais. Eleitorais, orçamentários, regulatórios. Mas nunca tivemos um sistema tão capilarizado, tão mutável (o financiamento de campanha mutou do Mensalão para o Petrolão com a rapidez e fluência de um vírus de filme-catástrofe), e tão nocivo à máquina pública brasileira. Em nome desse sistema, a cada dia nosso país perde credibilidade, confiança e claro, investimento.

Gosto de pensar num voto não como uma declaração de amor, ou uma promessa de amizade eterna. Fosse assim, raramente votaria. Tenho para mim que alguma frieza e visão estratégica se fazem necessárias ali, no escurinho da urna. Nosso sistema é muito limitado, porque não existe recall. Votou, já era, espere quatro anos. Não dá pra votar num projeto equivocado e torcer pra ele mudar. A inteligente Gal Barradas, no ápice da última semana de eleições, cravou uma frase que jamais esquecerei: “O brasileiro faz da esperança uma estratégia”. Perfeito. E terrível.

Quem traçou a estratégia da esperança quando votou na continuidade deste projeto de governo (projeto de Poder, melhor dizendo), não teve nem duas semanas de sonho. Caiu da cama antes da meia-noite.

Fica a lição: a corrupção como sistema não nos levará a nenhum lugar que não o abismo. E, no momento em que você lê este texto, sinto dizer: é exatamente para onde estamos indo.


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