Ensaio sobre a cretinice

É no mínimo interessante observar a trajetória do significado das palavras. De onde vêm e para onde vão. Me peguei pensando nisso quando percebi que tenho utilizado a palavra "cretino", ou sua flexão substantiva, "cretinice", com crescente frequência nos últimos anos, sobretudo no que se refere à vida pública brasileira. O insistente aparecimento do termo, com crescimento exponencial recente, acabou me fazendo pesquisar sua origem e desenvolvimento. Afinal, o que é esta "cretinice" à qual eu tanto me refiro?

Como quase sempre ocorre nos mergulhos incertos da etimologia, a primeira sensação é divertida e curiosa. Com que então, "cretinice" vem a ser uma patologia, uma generalização pseudo científica de distúrbio mental, um retardo. Fazendo um apanhado de três ou quatro dicionários diferentes, no primeiro e original significado cretinice significa idiotismo, estupidez, imbecilidade, parvoíce. Mergulhando um pouquinho mais fundo, os dicionários nos levam ao significado cotidiano e usual: insolência, cinismo, falsidade, desfaçatez.

Não sei como o significado migrou de uma doença física para uma doença de caráter, mas gosto de imaginar que o sentido original, trazido lá atrás pelos portugueses, seres deliciosamente lineares, foi transformado pelo povo daqui, indivíduos afeitos ao subtexto e à subversão linguística (naquela época era uma das poucas que não nos levava à forca). E como sempre ganhou em profundidade, em textura, tornou-se mais aderente e usável. Deixou de ser língua e passou a ser linguagem. Safado, falso, sem-vergonha, cínico. Cretino.

E agora, séculos depois, a palavra vive seu auge. Cretinice, no seu segundo significado, é como gás carbônico, mosquito da dengue ou, para mim, a camisa do Flamengo. Ou seja: tão desagradável quanto onipresente. Mas nunca, ou como diria um dos grandes cretinos da história, nunca antes na história deste país a cretinice esteve tão frequente, intensa e perturbadora como na vida pública atual.

A cretinice está, é claro, na candidata que mente descaradamente durante a campanha e acredita que a população vai esquecer de suas mentiras na badalada mágica do relógio, à meia-noite do dia da posse.

A cretinice está no marqueteiro que vende essa idéia por dezenas de milhões de reais para a candidata e seu partido. E claro, no mesmo partido que celebra a vitória suja como uma "vitória do povo".

Está no ex-presidente da República que muda de discurso ao sabor das marés, que na eleição eleva sua candidata ao patamar de semideusa do povo, no período entre eleição e posse declara que "vocês vão se surpreender com o segundo mandato da Dilma" e agora, menos de seis meses depois da posse, começa a posar de oposição revoltada.

A cretinice obviamente está no partido das bravatas, que decidiu expulsar "qualquer membro condenado pela justiça", mas mantém em suas fileiras Dirceu, Genoíno, João Paulo, quadrilheiros condenados, com a comenda de "guerreiros do povo brasileiro".

Mas a cretinice não está apenas na liderança do PT. Nem pense nisso. A cretinice está na oposição que não se opõe de verdade. A cretinice está em Álvaro Dias defendendo Fachin para o STF, atiçando a ingenuidade de setores da imprensa que creditam isso à "bairrismo". Jura? Você acha sinceramente que um dos principais senadores do que deveria ser o principal partido de oposição defenderia para Ministro do Supremo um cidadão claramente governista, um defensor do MST, por "bairrismo"? Amigos da imprensa, há muito, muito mais entre o céu e Curitiba do que supõe a vã filosofia.

A cretinice está nos 7 deputados do PT que fogem como ratos do plenário da Câmara durante a votação que, em nome do ajuste fiscal, reduz acesso ao seguro desemprego, entre outros benefícios trabalhistas. Fica difícil saber quem é mais cretino: os que ficaram para votar alinhados com Dilma, ou os que fugiram. Minha aposta é no segundo grupo, pois não há nada pior do que um cretino covarde.

A cretinice tem se manifestado regularmente nas atitudes risíveis da deputada Jandira Feghali, que adora ver as galerias da Câmara ocupadas pelos seus apoiadores, mas quando se vê pressionada na situação inversa, se faz imediatamente de vítima e chora. Na votação em que a deputada e seus amigos rasgaram a Lei de Responsabilidade Fiscal, o grito "Vai pra Cuba" foi transformado em "vagabunda" pelo ouvido seletivo e eleitoralmente treinado da deputada. Esta semana, a atriz-deputada se meteu entre dois colegas para se dizer "agredida" por Roberto Freire, novamente jogando para a torcida no momento mais apertado do jogo. Foi de fazer inveja ao Rojas, aquele goleiro do Chile, lembra? Um clássico da cretinice. Pior foi ver o truculento deputado Alberto Fraga cair na pegadinha e se lambuzar todo com uma declaração igualmente cretina, dando à deputada o que ela foi buscar ali. Mas aí já não era só cretinice. Era tolice.

A cretinice está obviamente na disseminação do pensamento que "todo mundo rouba", "todo mundo é corrupto", e no uso deste argumento como defesa do partido que hoje governa o país sob a sombra de uma série inominável de crimes, roubos, mentiras, sequestros emocionais, atentados a todo e qualquer valor republicano fragilmente construído ao longo do último século e pouco.

Mas o fato interessante é que a disseminação da cretinice tem um culpado maior, bem maior do que os próprios cretinos. Os cretinos, pasme, são apenas soldadinhos.

A cretinice é como uma erva daninha que se espalha num jardim. E dizer que a culpa de uma praga do jardim é das ervas daninhas é por si só, uma nova cretinice. Ora, a culpa da praga é sempre do jardineiro. O resto, meu caro, é sofisma. A índole da erva daninha é causar danos, parasitar, sugar. A responsabilidade de manter o ecossistema sob controle é do jardineiro. E por desejo, omissão ou incompetência, nossos jardineiros têm errado na mosca.

Os deputados, senadores, presidentes e marqueteiro citados parágrafos acima são cretinos, isso é fato. Sempre foram. Sempre serão. Mas coloque estes cidadãos sob uma liderança razoavelmente decente e suas cretinices ficarão circunstritas a um restrito grupo de cretinos-juniores, seus seguidores, blogueiros amestrados e eleitores de cabresto. Sem problema. Podemos viver com isso. O Brasil é bem, bem maior do que isso.

Precisamos reorganizar o país sob novas lideranças que cortem o oxigênio da cretinice. Existir ela sempre existirá. Mas queremos um país onde a cretinice não prospere, não se multiplique, não frutifique. Como ocorre com as cobras, aqui a cura se fabrica com o próprio veneno. O excesso absurdo de cretinice patrocinado pelo projeto falido de poder do PT nos dá agora a chance de mudar isso. Passou do limite, e a população, sufocada, está reagindo de forma eficaz e irreversível. Uma das maiores cretinices cometidas por Lula, o cretino maior, foi tentar, como recurso desesperado (e temporariamente eficaz), dividir o país. Mas de certa forma o país está sim, dividido. Entre cretinos e não-cretinos.

Temos nas mãos o poder da mudança. E não precisamos de armas nestas mãos, como advogam alguns outros cretinos. Com as mãos tuitamos, postamos, compartilhamos, levantamos cartazes, escrevemos, batemos panelas, pressionamos parlamentares com argumentos, pesquisamos caminhos legais, legítimos e democráticos de interromper o ciclo da cretinice. Porém, se perdermos esta oportunidade, cretinos seremos todos, sem exceção.

E, desta vez, no sentido original da palavra.

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