Increible

Há no cinema um sem-número de finais inesquecíveis, surpreendentes, que vêm coroar uma obra prima ou por vezes salvar um filme menor. Sem pesquisar muito no iMDb, apenas usando a memória orgânica instalada, vêm a mim o beija-mão de Michael Corleone, a peninha voadora de Forest Gump, o monólogo de Rutger Hauer em Blade Runner, o tiro de Beleza Americana, o Deus Ex-Machina de Poderosa Afrodite e, sem dúvida, o "increible" de Benício Del Toro na pele de Che, no excelente capítulo um do duplo filme de Soderbergh.

Pra quem não viu, segue o spoiler: depois de consolidada a surpreendente e heróica vitória da Revolução, uma coluna de barbudos liderada por Che se desloca da cidade de Santa Clara para Havana, a fim de se encontrar com Fidel e iniciar um novo capítulo na história da luta pela liberdade e justiça humana. Só que não.

Ainda na estrada, a bordo de um tosco jipe de guerra, Che se vê ultrapassado por um festivo e reluzente conversível americano, pilotado de forma adolescente por um comandado de Che e um grupo de jovens admiradoras, todos entorpecidos pela vitória e pelo rum. Che imediatamente pede a seu motorista que emparelhe com o conversível e, em tom de forte reprimenda, manda o soldado revolucionário encostar o carro. Che sai do jipe e, fuzilando com os olhos o subalterno, pergunta que carro é aquele e o que ele pensa estar fazendo. O soldadinho, já sem jeito, explica que o carro é de um morador rico da cidade e que eles confiscaram o veículo, afinal estão no poder, não era essa a idéia? Benício "Che" Del Toro, numa atuação magistral, descasca no cidadão um discurso sobre ética, valores e sobre já estarem ali, no momento seminal da revolução, reproduzindo a mesma fraqueza de espírito que levou seus derrotados inimigos a transformarem a ilha numa espécie de bordel dos Estados Unidos. Manda o soldado e suas companheiras — agora profundamente envergonhadas — de volta à Santa Clara, para devolver o carro e ter a decência de entrar num trem para Havana junto com o povo.

Che volta andando para o jipe, com a câmera solta de Soderbergh a acompanhá-lo, se joga no banco, faz que não para si mesmo com a cabeça e grunhe uma palavra, que resume o tamanho descomunal da sua decepção com o ser humano: “Increible!”.

Os créditos sobem e naquele “increible” se faz um novo filme em nossas cabeças. Um filme sobre o fracasso deste experimento chamado coletividade. O que pareceu funcionar bastante bem em configurações primitivas, com funções bem específicas como matar um gnu ou proteger-se do inverno, falhou consistentemente quando os próprios humanos decidiram sofisticar a tarefa e conquistar não mais um jantar ou um dia extra de vida, mas paz, justiça e harmonia para todos, em sociedade.

Em cada império sanguinário, em cada falência de sistema, em cada experiência fracassada (mesmo aquelas que soavam perfeitas na teoria e nas palavras dos pensadores) ficava quase sempre a mesma lição: o poder corrompe. Sempre.

Fica fácil, ouvindo o “increible” de Che, entender porque ele próprio não ficou para construir a nova Cuba. Diz-se que Fidel traiu Che mais de uma vez, e que aí está a semente do adeus do argentino. Fidel provavelmente traiu Che sim, a julgar pelos relatos e documentos históricos, mas essa foi uma decepção menor do que a de perceber que, por mais bonito que fosse o sonho que seus barbudos ousaram sonhar, ele seria destruído pela incapacidade humana de lidar com a concentração de poder. Pior: a certeza de que qualquer outro sonho, de qualquer corrente ideológica existente ou que ainda viesse a existir, estaria fadado ao fracasso sempre que sua premissa fosse colocar o poder na mão de um grupo restrito e homogêneo de pessoas, por mais bem intencionadas que parecessem.

Já passei da adolescência física e felizmente, também da ideológica. Já fiz o luto da esperança no bicho homem. Não acredito em nós. Somos seres muito, muito imperfeitos. Portanto, qualquer que seja o plano para nos organizarmos em sociedade, a premissa precisa ser: pouco poder na mão de muitos. E isso, trazendo o assunto para o Brasil que vivemos significa um Estado menor, alternância de poder e mecanismos de controle descentralizados. O exato oposto do que acreditam nossos atuais governantes.

É cada vez mais anacrônico o debate sobre “sistema econômico”, “esquerda ou direita”, “liberalismo ou socialismo”. É inócuo, infantil, quase ridículo, e não pelo mérito de cada modelo, mas porque a incapacidade humana de administrar com ética e correção moral um Estado gigante e centralizado sequer nos deixa chegar lá, na parte interessante da discussão. Qualquer modelo que tenha o poder central como elemento todo-poderoso de redistribuição de renda e justiça social já nasce morto, porque ele inevitavelmente se transformará numa fábrica de benesses e privilégios para os que o suportam. Preciso dar exemplos? Acho que não.

Numa coluna recente o Elio Gaspari cita mecanismos de controle descentralizados que começam a surgir em sociedades mais, digamos, auto conscientes. Fala da figura do “whistleblower”, que numa tradução pejorativa poderia ser o “dedo-duro”, ou o famoso “X-9". Nestes mecanismos, qualquer funcionário de uma empresa, privada ou pública, que denuncie práticas ilegais da sua empresa ou organização contra a sociedade, pode ser premiado com uma parcela da multa aplicada à empresa, uma vez comprovada sua denúncia. É a delação premiada 2.0, muito mais capilarizada, porque se aplica a qualquer pessoa, sem que essa esteja necessariamente com a espada da justiça e da punição sobre sua cabeça. Isso poderia gerar uma sociedade paranóica, onde ninguém confia em mais ninguém? Pode ser, e obviamente o detalhamento da lei deveria cuidar disso. Mas percebe como, ao quebrar a centralização do poder, fica mais difícil roubar, desviar, corromper?

Fala-se hoje num “escândalo do BNDES”, incrivelmente maior que o Petrolão, por sua vez muito maior que o Mensalão. Me lembro daquela piada sobre a primeira ereção de Adão. Ele teria dito a Eva: “Melhor se afastar porque eu não sei até onde isso cresce”. Mas fica claro perceber que, quanto mais fechado é o sistema de poder, mais se corrompe. O BNDES é uma verdadeira caixa-preta, recursos são transferidos do Tesouro para o banco e de lá, só Deus (no caso, Lula) sabe. O critério para a seleção de prioridades na gestão de recursos é completamente obscuro. Um BNDESÃO não será, portanto, surpresa para ninguém.

Há uma série de motivos para desejar o fim do “projeto de poder” que hoje governa o Brasil, que vão da simples falta de habilidade administrativa e política à escolha de uma matriz econômica falida, mas talvez o maior e mais devastador deles seja justamente o que o define: é um projeto de poder, não é um projeto de país. Não é, neste sentido, tão diferente do plano de Cebolinha desenhado no início dos anos noventa pelo grupelho de Fernando Collor, aliás aliado fiel deste governo. É apenas muito maior e mais sofisticado, portanto bem mais perigoso. Está nos discursos filmados de José Dirceu, está na celebração de José Genoíno como um mártir e não como o corrupto que ele é, está nos discursos populistas, manipuladores e nas chantagens emocionais de Lula, está nas mentiras de Dilma, está na campanha suja projetada e orquestrada por João Santana, está no Ministro da Justiça se portando como um advogado do PT. Todos eles, em seus atos, dizem a mesma coisa: a única forma de preservar o poder é aumentando o poder.

As consequências estão aí: um ministério increible, ainda pior do que o anterior, construído para suportar a qualquer custo a base de apoio (e lembrar que a Dilma ridicularizava a Marina dizendo "quem é que não vai querer governar com os melhores?"). Um serviço público cada vez pior, fruto de um critério de indicação e contratação exclusivamente partidário, zero técnico ou meritocrático. A defesa de leis sempre sob a ótica eleitoral, nunca sob a ótica do desenvolvimento. Faça o teste: verifique se nos próximo anos a bancada governista aceitará transformar o Bolsa Família em política de Estado, como já foi proposto no Congresso e rejeitado veementemente pelo partido há dois anos. Jamais, porque a principal consequência do apego ao poder é esta: um governo eternamente em campanha, um governo que não governa, apavorado com o dia em que terá de assistir à chegada de um novo inquilino ao Palácio do Planalto, um (ou uma) presidente vindo das fileiras da oposição. Sabe-se lá quantos e quais esqueletos sairão dos armários do Palácio neste terrível dia.

Sim, porque se há outra coisa que a História nos provou, é que todo projeto de poder um dia chega ao fim.

Feliz Ano Novo pra você também.

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