Joga pedra na Leni
Leni Riefenstahl foi uma das artistas mais brilhantes de seu tempo, e uma das mais influentes cineastas do século XX. Sua obsessão estética, possivelmente herdada dos tempos de bailarina, foi o fio condutor de uma filmografia que, ideologia e ética a parte, encanta os olhos. Para quem não conhece a moça eu explico o aposto: Leni era a cineasta favorita de Hitler. Mais que isso, foi uma ferramenta de publicidade fundamental na disseminação da retórica nazista junto ao povo alemão. Leni “vendeu” o nazismo para milhões de alemães, e para isso usou seu dom supremo, o de seduzir através de imagens e sons, dispostos de forma tão harmônica e contundente que envolviam o espectador numa lógica irresistível: só uma ideologia perfeita poderia produzir tanta beleza. Leni, segundo seus próprios relatos, conectou-se com Hitler e com o nazismo atraída pela promessa de uma Alemanha forte. Berlinense, ela amava ser alemã e tinha 16, 17 anos quando seu grande país foi humilhado pelo Tratado de Versalhes, no capítulo que ao mesmo tempo encerra a Primeira Grande Guerra e serve de prefácio para a Segunda. Daí pra frente, cresce assistindo aos tropeços da sua nação, testemunhando a erosão dos valores que a fizeram amar sua pátria e sua terra. Até aqui, quem poderia apontar algum dedo para Leni? Era sua posição política e ideológica: ela era contra as regras impostas pelo Tratado e queria a Alemanha forte de novo. Legítimo, não? A linha começa a ser traçada quando, no início dos anos 30, Hitler traz Leni para seu time e a cineasta se torna parte integrante da elite intelectual que desenhou e implementou o complexo arcabouço de códigos e estímulos que se convencionou chamar Propaganda Nazista. Leni havia se tornado uma arma de Hitler. E as armas de Hitler eram usadas para matar, roubar, torturar, corromper. Eram as armas de um criminoso. Leni havia se tornado uma cúmplice.
Leni, como você imagina, foi questionada no fim da guerra por diversos tribunais, que não conseguiram estruturar um caso concreto que justificasse uma condenação. Nessas audiências, Leni alegava ter sido “ingênua”, que sua adoração pela idéia de uma Alemanha grande de novo a tinha cegado para os crimes absurdos cometidos por seus colegas e contratantes. A mim, parecem alegações ridículas. Leni era uma mulher genial, culta, informada, curiosa, íntima do poder, e todas essas características pessoais que se refletiram no brilho incontestável de seu trabalho são ao mesmo tempo as evidências de que sua defesa é uma farsa. Leni sabia o que estava fazendo. Para mim, Leni deveria ter tido no mínimo o mesmo destino que Albert Speer, o genial arquiteto de Hitler, que passou 20 anos na prisão.
O que nos leva a Chico Buarque. Claro, os crimes nazistas foram mais terríveis do que os crimes petistas, mas a dosimetria aqui importa pouco. Se fôssemos entrar nesse mérito haveria como dizer que Leni também foi uma artista muito maior, mais inovadora e influente do que Chico. Mas essa não é a questão. A questão é o dilema ético que muitos de nós discutimos na semana passada: é correto fazer bullying em Chico Buarque?
Para não chatear o leitor com sofismas e firulas retóricas por parágrafos a fio, direi na lata minha opinião: fazer bullying no Chico porque ele defende uma ideologia estatizante comprovadamente fracassada, um grupo político incompetente, um sistema de relação parasitária entre cidadão e poder público? Não, não acho correto. Seria correto sim, num debate sobre o tema, discordar dele, apresentar uma lista quase infinita de fatos que explicitam seu equívoco, e acredite: há essa lista. Mas interpelá-lo na rua para cobrar a conta de suas crenças? Não acho correto. Porém, quando este mesmo grupo político se torna uma organização criminosa a coisa começa a mudar de figura. Ao usar sua influência para dar aval ao PT pós-Mensalão, pós-Celso Daniel e pós-Petrolão, Chico faz uma opção. Quando aparece ao lado do Companheiro Stédile em vídeos no Youtube “vendendo” o MST como uma organização humana e sensível, Chico faz uma opção. E essa opção inclui sim o risco da cobrança pública, porque é como figura pública que Chico defende esses criminosos. Hoje, portanto, na minha opinião, é correto cobrar Chico na rua.
Chico usa o poder sedutor da celebridade defendendo seus amigos, mas quer ser visto como um pedestre anônimo quando é cobrado por isso. Para citar um conhecido parceiro musical de Chico, “cada um sabe a dor e a delícia de ser o que é”. As pessoas que são prejudicadas pelos criminosos para os quais Chico advoga publicamente tem sim o direito de defesa. E Chico vai ter que se acostumar com a dor de ser o que é.
Obviamente cada um se defende como pode e sabe. Quando lutava contra um grupo político criminoso, no auge da sua carreira, Chico Buarque compôs obras artísticas admiráveis, como “Apesar de Você” e “Cálice”. Imagino que a vontade primitiva de Chico em 1972 era esculachar na rua o próprio General Médici, seus asseclas e puxa-sacos. Mas isso, além de mortalmente perigoso, era muito menos eficaz do que compor aquelas obras. Os críticos que esbarraram em Chico semana passada eram mais limitados, portanto fizeram o que sabiam e podiam: provocaram, criticaram, filmaram e postaram no Facebook. Bem menos chique, bem menos eficaz, bem menos duradouro.
Mas nem por isso menos legítimo.