
Alunos da Unesp assistem palestra sobre Audiodescrição
Em busca de expandir o olhar dos estudantes, Lívia Motta apresenta tema que visa inclusão cultural e social
Alunos da Unesp recebem na quarta-feira, dia 18, a palestrante e audiodescritora Lívia Maria de Mello Motta para a “XXI Jornada Multidisciplinar”. Esse ano o tema é “Crise nas Humanidades: Inclusão e Resistência em Tempos de Retrocesso” e para abrangê-lo, Lívia discute a respeito da importância da Audiodescrição. Poucos conhecem e muitos nem sequer ouviram falar. Por esses e outros motivos, que a mestre e doutora em Linguística Aplicada e Estudos da Linguagem pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC/SP) foi convidada a transmitir esse conteúdo.
Mas afinal, o que é a Audiodescrição? “É a arte de transformar imagens em palavras de forma a compor, junto com a obra, um novo texto narrativo”, explica Lívia. Ela ainda relata ser um recurso de acessibilidade comunicacional que amplia o entendimento das pessoas com deficiência visual por meio da informação sonora em espetáculos, museus e filmes. Vale ressaltar que o recurso promove a inclusão, autonomia e a participação em igualdade de condições.

O evento ainda contou com a presença dos Projetos de Extensão da Unesp que fazem parte da formação dos jovens universitários, como o Biblioteca Falada e o Matav.
Conversando com Chirlene Samara, que foi aluna do curso de Relações Públicas e ex-integrante da equipe de Audiodescrição do Biblioteca Falada, percebe-se o cuidado necessário ao ter contato com esse artifício: “Uma boa audiodescrição deve ser feita com muita atenção, e não de uma forma mecanizada. Dessa forma, é mais fácil e intuitivo para o ouvinte compreender e acompanhar a informação sonora. Evitar rebuscamentos e usar palavras mais do dia a dia também facilita a compreensão. É importante passar a informação de um jeito objetivo, rápido e fácil, até porque os períodos de silêncio no cinema são muito curtos, e o público também precisa prestar atenção nos diálogos e na trilha sonora”, afirma Chirlene.
A audiodescrição complementa outros recursos de acessibilidades já existentes de sinalização como piso e mapas em locais público. Pode ser veiculada por meio de aparelhos [rádio visitação, aparelhos MP3 e iPod] ou por meio da mediação dos educadores/monitores, assim como explicita Lívia Motta. Ao perguntar ao membro do Matav, Luís dos Santos Miguel, 21, e aluno do quarto ano de Design Gráfico da Unesp, a respeito da efetividade da audiodescrição, Luís responde que o foco deve ser discutir e problematizar a fim de entender como explorá-la da melhor forma.
Além disso, perguntamos como o Matav entendia a familiaridade que cegos sentem em ambientes públicos, ao fazerem uso da audiodescrição — a familiaridade remete a uma sensação de aconchego, de sentir-se em casa, sentir-se à vontade: “Quando exibimos trabalhos, os cegos se mostram gratos, gostam e falam muito bem. Porém, não sabemos se é por que eles realmente gostam da obra ou por que falta um repertório para saber o que é bom e o que é ruim. Como é um conteúdo muito escasso para eles, as vezes o que mostramos já está ótimo. Não é um público muito crítico, por isso estamos sempre em busca de consultores para melhorarmos cada vez mais”, explica Luís.
Nesse sentido, é importante que o país comporte esse parecer para pessoas com deficiência visual em todos os âmbitos culturais pois, quanto mais contato tiverem, mais críticos se tornarão, a fim de melhorar o desenvolvimento da audiodescrição. “Há sim, uma lei que determina que espetáculos, museus e até cinemas, tenham profissionais ou serviços de audiodescrição. Entretanto, é muito claro que isso não é atendido. Quando encontramos algum lugar com esse tipo de serviço, a experiência é muito mais rica, mais imersiva e não somente as pessoas com deficiência são atendidas, mas também os companheiros, a família e os amigos. Todos ganham com essa acessibilidade”, esclarece Chirlene.
Por sua vez, Luís conta que a lei demorou para ser implantada pois precisou de um período de adaptação, o que é natural, mas acabou que esse tempo se entendeu demais. Aliás, possuir a audiodescrição não significa qualidade do conteúdo, já que o Brasil é carente em repertório da audiodescrição. Pela sua experiência pessoal, Luís nota a frequência maior do artifício em museus do que em cinemas e em teatro: “Talvez por que o museu tem verbas muito altas vindas de patrocínio de outras instituições, como bancos”. Ele ainda completa: “Talvez o brasileiro em sua maioria não vá atrás de cobrar o recurso por não precisar ou por falta de informação mesmo. Por outro lado, a audiodescrição é pouco anunciada por parte dos órgãos responsáveis pela tal. Como se trata de uma minoria, a fiscalização da lei é falha e os danos aos responsáveis pela exclusão social são mínimos”.
Com foco maior no cinema, existe uma discussão muito ampla no quanto o audiodescritor pode expressar sua opinião. “Na verdade, a audiodescrição visa gerar emoções por meio das imagens — ser imparcial e ao mesmo tempo transmitir a emoção da obra. Assim, é para as pessoas com deficiência visual formarem suas próprias opiniões. Por isso, são vários critérios que devemos seguir, inclusive a ordem de cada carácter. Outro desafio remete ao trabalho da audiodescrição nos silêncios da obra, nos respiros. Devemos nos aproveitar dos espaços que a obra deixa e nem sempre os realizadores pensam nesse sentido”, evidencia Luís.
Chirlene também explica que a audiodescrição de filmes depende da sensibilidade do audiodescritor para perceber o que é relevante ao ouvinte. Por isso, uma boa audiodescrição deve ser feita com muita atenção, e não de uma forma mecanizada: “Pensando no roteiro, é necessário escrever as orações em ordem direta e períodos simples. Dessa forma, é mais fácil e intuitivo para o ouvinte compreender e acompanhar a informação sonora. Evitar rebuscamentos e usar palavras mais do dia a dia também facilita a compreensão.”

