Minha vida de abobrinha

17/02/2017

No meio da minha tradicional maratona de filmes indicados ao Oscar finalmente consegui assistir Minha Vida de Abobrinha, um filme franco-suíço de stop-motion que logo se tornou meu preferido dentre os indicados a Melhor Animação (e a categoria neste ano está muito boa). A história gira em torno do Abobrinha, um menino vítima de negligência e abuso que vai parar em um orfanato com outras crianças em situações parecidas. O filme é extremamente honesto e não se desvia dos motivos das crianças estarem lá e as consequências que elas tiveram de arcar desde então (o design dos personagens com olhos profundos e tristes nunca te deixam esquecer as tragédias vividas por elas), mas tampouco pesa a mão na hora de abordar estas questões, salientando sempre com empatia as diferentes personalidades e a camaradagem que surge entre o grupo de amigos.

O fato do filme ser stop-motion é importante para transmitir a letargia do movimento das crianças; imagino que uma animação 3D abateria parte da melancolia, além de perder o aspecto tátil e áspero que é tão essencial ao filme. Isto também leva à curta duração (66 minutos), que mina parte dos principais conflitos da história, pois eles em geral se resolvem logo em seguida; os criadores parecem ter consciência disso já que o filme está mais preocupado em acompanhar o dia-a-dia das crianças do que seguir uma trama regimentada (o que é ótimo neste caso). Por fim, Minha Vida de Abobrinha é um dos raros casos em ficção infanto-juvenil que retrata orfanatos como lugares positivos e transformadores.

Voltando da sessão, já muito esvaziada pela emoção e o calor do verão, ainda fui ensanduichada por dois dramas diferentes em um vagão do metrô: na minha frente, um menininho pequeno sentado no colo do pai, completamente em prantos por algum motivo ou outro, pedindo permissão para chorar, e perguntando o porquê dele não poder chorar. O pai na verdade apenas o segurava sem dizer nada e só respondia alguma coisa baixinho quando o menino levantava a voz. As pessoas ao redor trocaram aqueles sorrisinhos compreensivos, e um velhinho na plataforma até tentou animá-lo com caretas, que funcionou por alguns segundos até o vagão seguir o caminho, e ao adentrar o túnel ele já estava completamente desconsolado novamente. Enquanto isso, ao meu lado, um grupo de três garotos adolescentes, dois deles tentando em vão consolar o terceiro, que aparentemente havia acabado de levar um fora e chorava alternadamente nos ombros dos amigos. “Você é o cara mais legal que conheço”, “A melhor coisa a fazer agora é bloquear” e uma série de outras palavras e confortos, que passaram completamente batido por uma feição completamente miserável e drenada de qualquer expressão. A “What’s Up” do 4 Non Blondes surge no shuffle. Tive que me segurar.

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