Amores de carnaval

Flickr | CC Polonês Einzufall

Dia 15, sábado

Gabriel foi o primeiro. Notei sua presença antes de seu olhar se encontrar com o meu, a alguns metros de mim. Cambaleante, usava um micro-short com flores de cores tão vibrantes quanto sua animação. A barba triangular invertida, bem cheia, ajudava a arredondar o rosto fino. Os cabelos eram ondulados e compridos, e moviam-se em meio aos passos saltitantes na lateral esquerda do trio Tarado Ni Você. Paraibano, aos 23 anos era jornalista com formação interrompida na Universidade Federal da Paraíba. Há pouco mais de dois anos, aventurava-se em terras paulistanas, com sotaque intacto. Abandonou o texto pela arte de fotografar.

Não distante dali, ainda de longe, a camisa estampada e florida tornava evidente a presença daquele homem. No entanto, a roupa era uma mera coadjuvante. O protagonismo estava no olhar de Marcelo. Com óculos retangulares, de hastes finas, chegou de mansinho, encostando sua barba rala em meu rosto.

Antes de qualquer pronunciamento, me devorou com seus olhos miúdos, porém astutos, como se estivesse à espera do momento certeiro de capturar sua presa.

Letrista, professor universitário, tinha trinta e tantos anos e havia tornado-se doutor não apenas na academia, mas na arte de fazer qualquer um apaixonar-se por ele, com apenas um abraço, nem frouxo, nem apertado: exato.

Dia 16, domingo

Já no Viaduto Santa Ifigênia, encontrei Rafael vestido de monge. Rapidamente, porém o suficiente para seu brado na despedida do breve contato: “Precisamos nos ver com mais tempo, né?”. De monge, o jovem estudante de direito, de 23 anos, nada tinha: as manifestas expressões corporais abortavam qualquer possibilidade de clausura do baiano cor de chocolate.

Meia hora mais tarde, mirei Alex. Ele usava uma fantasia da qual não gastara, certamente, um vintém. No alto de suas três décadas de vida, decidira fantasiar-se de “tomador de banho”. E que banhista! Trajava apenas e simplesmente uma toalha cinza, presa ao abdome tanquinho, quando não ornamentava a vestimenta com touca de banho azul sobre a cabeça careca.

Os músculos negros, em seus 1,86 de altura, eram claramente o mais excitante de sua pele. Um sorriso de canto, mútuo, foi o precursor do contato.

Dia 17, segunda-feira

Na Avenida Ipiranga com a São João esbarrei com Leleto. Usava um chapéu preto de aba larga, insuficiente para encobrir, totalmente, os cabelos desgrenhados. O sorriso leve concertava com o físico magro de seus 22 anos. O abraço, paradoxalmente brando e apertado, encaixou-se com perfeição em meu corpo. Senti seu perfume doce, tão doce quanto suas encenações no palco.

Alisson estava acompanhado por dois amigos. Quando nossos olhos se encontraram, parou para encostar-se, brevemente, à parede à qual eu me amparava. A multidão, frenética, rumava avenida adentro. Ele era jornalista, tirava uma folga para encobrir-se no meio de foliões como nós. Mineiro, de 26 anos, despedira-se do abreviado contato clamando um “Seu safado”.

À noitinha, Pedro Jackson reluzia como uma belíssima pérola negra de dreads, de vinte e três anos. Minutos depois, foi a vez de me trombar em Adriano, com seus cabelos e barba compridos. No mesmo lugar, dois homens bonitos e diferentes.

Dia 18, terça-feira

Washington ganhava impulso… e rodopiava. Parei para vê-lo girar, contente, como uma criança quando ganha um presente no dia 12 de outubro. Nos cruzamos em frente à Galeria do Rock. O corpo malhado, revestido por uma pele cor jambo, ornava com o cabelo black power e seu desmedido sorriso. Um verdadeiro encanto. E não somente para mim como para as minhas amigas, incrédulas ao vê-lo juntar-se ao meu corpo.

“Quem é esse Deus?”, indagaram, assim que me despedi dele, com um beijo no rosto. “Washington. 30 anos. Psicólogo. Professor”.

Ao som do batuque do bloco dos Penetras, já no buraco da Minhoca, foi a vez de me deparar com Rafael. Ao contrário do primeiro, este era paulistano, sete anos mais velho, tinha um bigode ralo; escassos como o cabelo corte máquina dois. Dorso forte dentro de uma camisa inundada de flores, seus braços ficavam à vista; o mesmo com as panturrilhas torneadas.

Por lá, fumava um beck quando, acanhado, me notou ao seu lado. “Tudo bem? Como está?”, sorriu, iniciando o cumprimento efêmero. E estivemos bem. Muito bem.

Dia 19, quarta-feira de cinzas

A quarta-feira de cinzas foi tempo de relembrar de todos esses amores de carnavais. Mas não deste. Doutros. Fora de época.

Encontrei Gabriel há pouco mais de um ano, em seu apartamento na Vila Mariana.

Depois de uma transa e do bolo de fubá feito por ele, nem mais um beijo, tampouco um “Olá” foi trocado.

Eu e Marcelo ainda nos curtimos. Agora única e exclusivamente pelo Facebook. “Ainda se lembra de mim?”, perguntou-me em meio a esta folia carnavalesca. “Claro… Marcelo”, respondi, em voz alta, aquilo que dentro de mim dizia: “Eu nunca te esqueci”. E nunca havia me esquecido daquela noite regada a cervejas Stella Artois long neck e músicas blues das quais nunca ouvira antes. Canções que embalaram aquela atmosfera fascinante de quando nos conhecemos, também há pouco mais de doze meses. Ainda em seu carro, quando me deixara na porta de casa, garantiu: “Quero te conhecer melhor”. O verbo, no entanto, não foi conjugado pro futuro.

Já Alex, cinco anos depois, avistei-o com “muitas” vestes: uma toalha de banho. Nada mais. Leleto mantinha o mesmo sorriso de quando bebemos meia dúzia de cervejas num bar da Vila Madalena, há não mais do que quatro semestres. Ainda consigo rememorar seu olhar apaixonado a cada história narrada por mim. Conheci sua casa algumas vezes. Ele dormiu na minha, noutra ocasião. Hoje, ora ou outra, regamos as poucas flores que sobraram no jardim de uma relação que estava em cima do muro — por parte dele –, da qual não tardara a cair. Uma ou outra mensagem via whatsapp ou redes sociais; ele lá, eu cá.

Com Alisson foram trocados beijos num bar na Frei Caneca, antes de embarcarmos para sua casa, na Vila Mariana.

“Você vai ser meu”, dizia, ininterruptamente bêbado. A promessa embriagada, porém, não se concretizou.

De três anos para cá, nos esbarramos em algumas baladas e eventos. Os beijos do passado, hoje dão lugar a cumprimentos que não se estendem a apertos de mãos e prosas jornalísticas.

Pedro Jackson era mais bonito pessoalmente. Depois de quase dois anos, nos encontramos em meio à improvável multidão do Vale do Anhangabaú. “E aí!?”, tocou em meu ombro, enquanto me atravessava com o provável namorado. O mesmo fora com Washington, que, ao menos, concedeu-me um abraço e um beijo no rosto.

Jamais me esqueci da bela noite com Adriano. Assim como dos maus dias ao encontrá-lo, casualmente, nos corredores da PUC.

O Rafael baiano tinha a mesma simpatia que demonstrava virtualmente. Enquanto o Rafael, que não dispensava um beck, exalava o mesmo fulgor, mesmo vestido, de quando, literalmente, nos cruzamos em seu apartamento, na Santa Cecília. É impossível esquecer o poema, declamado em pé em frente a mim, performático, antes de nos embolarmos por todos os cantos de sua casa. Não tenho mais seu número. Vez ou outra, avisto sua beleza estampada em fotos felizes no Facebook.

Sim, este foi um Carnaval de inúmeros amores. Mas todos, de outros carnavais.

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