À noite

Agnes Cecile

Clara não consegue reter os lábios em certas situações. Algumas pessoas dizem que ela possui uma específica condição médica que a impede de conter-se em certas situações; outras, conjecturam sobre AVC’s ou danos cerebrais que a fizeram ser daquela maneira. Ela tem uma explicação simplória para a boca descontrolada: vontades noturnas.

Ao estar com algum homem e não sentir o corpo acordar, os lábios latejam de alívio ao identificar, do outro lado daquele cômodo, um outro que a vislumbra com os olhos semicerrados e a boca entreaberta. Ela ri por dentro, tecendo algum comentário desnecessário, sentindo as vibrações diretamente do peito para o pescoço, dos ombros ao maxilar. É neste momento em que o fenômeno acontece: as palavras saem de si como um espírito que abandona um ser, com tamanha violência que aquele que na frente dela está se assusta com tamanha avidez da verdade dita.

O processo se repete — várias vezes, com o mesmo homem magoado e o mesmo sorriso lascivo do outro lado da sala. Temores noturnos também provocam esse jeito afetado: é sempre uma tortura deitar-se de madrugada e convulsionar com a visão e com o som daquele que a assombra. É impossível conseguir pegar no sono com o Outro, que com o olho estimula ânsias, confundindo-a, e com os braços age de outra. No fundo da mente, ao acordar, quase subliminarmente, está o riso encantado e pegada firme, prontamente projetados em Clara. É uma tortura, ela diz, viver desse modo e sonhar desse jeito.

Às vezes, as explosões da boca cessam e ela experiencia momentos de quietude e calmaria. O Outro é empurrado para um local da mente inacessível e a sanidade retoma. Não mais bombardeia Aquele com palavras agressivas, não mais o metralha com desejos instintivos, frustrados e amassados pelo fino véu da realidade. Como um psicótico medicado, Clara se senta, estática, observando com curiosidade Aquele, cuja admiração salta do brilho dos olhos. Ela, por um segundo, sente-se satisfeita e orgulhosa de si mesma. Foi capaz de controlar as variáveis ao seu redor, controlar os impulsos graves que, noventa por cento das vezes, apoderam-se sobre ela.

Clara leva a caneca de café aos lábios, sentindo o gosto amargo, no mesmo segundo em que fita, pelo canto do olho, o outro lado do cômodo.