A marca de nascença de Clarice

Uma pintinha, bem entre os seios

Naturalmente, durante toda a infância ficou coberta por uniformes de algodão, restrita à família. Sua mãe dizia-lhe que aquilo era o que fazia dela um ser especial, e só deveria mostrá-la às pessoas que eram dignas de vê-la. Às vezes, por curiosidade infantil, cutucava a marquinha com a ponta do indicador, como se fosse um pequeno inseto que pousara ali. Acariciava-a por um tempo, admirada, afinal, não conhecia ninguém que fosse como ela. Por fim, acabava a escondendo por baixo de blusas de gola alta.

No período pré-púbere, sentia os olhares curiosos sobre seu busto, procurando explicações para aquela única pinta esquisita, pousada preguiçosamente entre as protuberâncias quase femininas. Sentia-se exposta ao ridículo quando se começava a indagar demais sobre suas origens — tanto as da própria Clarice quanto as da pinta — e, como aprendera a fazer com a família, cobria-se com algum casaco grande e felpudo.

Na adolescência… era outra história. O interrogatório infantil dera lugar a malícia em seu estado mais maligno. Os risos das meninas em ambientes não escolares e os olhares masculinos, com uma mistura de pena e diversão, olhando-a sem pudor algum, enquanto perguntavam a ela: “o que é isso nos seus peitos?”, fazendo-a corar e sair às pressas, tampando-se, após murmurar “não é nada”, constituíam o inferno astral de Clarice. Quando os primeiros amantes chegaram, ainda nessa fase que fazia-a sentir vergonha do próprio corpo, sentia o estômago congelar no momento em que via o olhar fixo entre os seios — na pequena marquinha de nascença. Esse olhar (que ela conhecia bem) fazia com que ela se desculpasse, catasse suas blusa e fosse embora.

A essa altura, no início da fase adulta, já não pensava ser especial por conter algo que ninguém mais continha. Decotes eram psicológica e fisicamente desgastantes e quando as blusas não eram conservadoras o suficiente, lenços e echarpes cobriam-lhe todo o colo. “Mostre-a para apenas aqueles que merecem vê-la” perdera completamente o sentido.

Até encontrar Marcos.

Marcos era um verdadeiro cavalheiro, desde o segundo que a conheceu, num café (“Vê-me um café expresso duplo, por favor”, frase que a fez olhar horrorizada para ele), até o instante que, às súplicas dela, continuou puxando o lenço vermelho, o qual combinava a blusa que Clarice vestia, de seu pescoço.

— Clarice, olhe para mim.

E ela olhou, tímida, envergonhada, como se houvesse algo anormal com ela mesma.

— Eu nunca vi nada mais lindo que a sua marca. É a sua marca.

Ela sorriu, pedindo que ele parasse com as mentiras. Beijando-a no pescoço, Marcos disse-lhe que não contava mentiras a ninguém. Seus lábios desceram até encontrarem a bolinha adormecida. Quando olhou para ela, Clarice não viu a repulsa ou a maldade usual. Viu apenas Marcos, um homem que a achava verdadeiramente bonita.

A marquinha, durante toda sua vida, fora sua glória e sua fraqueza. Naquele momento, representava apenas algo que só ela tinha, e que só era digna de ser mostrada àqueles que mereciam.