Ame-se
Exceto se…

Disseram-me que meu corpo não era ideal, mas esqueceram de citar a realidade por trás daquilo. Os médicos me recomendaram urgentemente emagrecer. Eram a mim dados diversos sermões sobre saúde, dada a minha pouca idade na época. Após o bullying, emagreci 10 kg. Senti-me bem, embora nunca satisfeita, nunca magra o suficiente. Agora, aos 19, percebo que engordei novamente — e o inferno astral recai sobre mim. Saio na rua e penso que todos me olham. Não consigo usar shorts sem julgar-me. Paranoia pura, você sabe. O mundo não é dos gordos, é o que penso. Não que eu me sinta gorda. Porém não há culpa em ser gordo — eles dizem. Na rua, os dedos ainda na minha cara. Na rua, ainda meu psicológico sendo pisado pelos pés e atropelado pelos carros. Não há culpa em ser gordo. E o número quarenta não é o meu; preciso emagrecer. Preciso voltar ao trinta e oito. Talvez o trinta e seis seja melhor. Não há culpa em ser gordo. Desgosto do meu reflexo no espelho e só penso em academia. Não há culpa em ser gordo — exceto, é claro, se você for gordo.
O mundo é dos magros.
Ainda bem que amor próprio ascende nesta sociedade doentia, não é?
Fato curioso: no site Pexels, se você digita “body” (corpo) na caixa de busca, só há corpos magros, padrões e mulheres grávidas. A representatividade está em cantos bem específicos. Emerge no youtube algumas blogueiras gordas e bem resolvidas, aumenta a quantidade de textos sobre o quão é importante aceitar-se, chove ensaios fotográficos de pessoas bem longe do padrão social imposto… caminha-se, de fato, a passos lentos, para o combate efetivo à gordofobia. Contudo, é inegável: o ideal corporal inatingível ainda gera muitos lucros, ainda é muito propagado e ainda estraga a vida de muitas pessoas, especialmente de meninas e mulheres. Ignorá-lo só porque há uma crescente onda de autoaceitação é ser ingênuo e atenuar o processo — não é pela ignorância que se luta contra o que é prejudicial.
Por isso, ame-se, mas ajude os outros a também se amarem. A diferença é feita de um a um. A cada dia em que há o respeito mútuo é um dia a menos sem o preconceito — e é essa a sociedade à qual devemos almejar. Sem hipocrisia, sem a falsa preocupação (“sua saúde está péssima porque você está gorda” não é regra), sem vigiar a vida alheia e, sobretudo, sem desejar que os outros vivam conforme a sua vontade específica.
