Arrancando o mal pela raiz

Ou, pelo menos, tentando chegar nele

Imagem por Agnes Cecile
O medo é como uma faca cega: só machuca se você o subestimar. Caso contrário, ele sequer poderá feri-lo.

A autodestruição é como um inseto comendo um animal por dentro suas entranhas: começa no cérebro e, conforme a doença lhe atinge, alastra-se por todo o seu corpo. Quando há o diagnóstico, já não existe tempo. Antes que se dê conta, o homem vira um morto-vivo, desprovido de qualquer alma ou saúde, perambulando pelos lados mais sombrios do mundo; e, infelizmente, a moléstia é extremamente comum no século XXI, o século dos avanços.

Parece paradoxal que, na época na qual o ser humano é considerado o mais ‘evoluído’ possível, ainda se lucre e prolifere as doenças psíquicas, por meio de anúncios que vendem o corpo inatingível, propagandas que espalham a vontade ilusória de consumo (a qual colabora para a formação absurda de lixo) e criação de redes sociais que enaltecem um comportamento desprovido de qualquer emoção ou compaixão individual. Talvez a inteligência só se refira ao capital, não sei ao certo, mas não me conformo com a ironia do cenário inteiro.

Criamos crianças inseguras, que se tornam adultos inseguros, repletos de complexos intratáveis, pois educamos a outra parcela saudável para ser funcionalmente incapaz. Dizemos a eles: “nunca pensem que são insubstituíveis, pois não são”, no mau sentido, ofendendo-os, comparando-os a ratos de laboratório; treinados para servir a um bem maior denominado Estado — um lobo em pele de cordeiro, cujo principal papel é persuadi-los a serem algo que não querem ser e enfiar em suas cabeças ingênuas ideias desgraçadas sob pretexto de “bem maior” ou “segurança nacional”. Moldá-los para os desmembrar. Aliená-los.

Eles lotam suas vidas virtuais com discursos depressivos, que promovem com o peito inflado e um sorriso frágil nos lábios, achando que amor é isso: expor-se ao mundo, procurando alguém cuja patologia seja a mesma que a sua. Observo, seca, adolescentes valorizarem ‘tweets’ negativos, depreciativos, violentos, até; não com os outros, mas consigo mesmos. Resumem-se a transas e cabeças vazias, inseguranças, álcool, torpores, transes, choros e tentativas de atingir a perfeição (que eles não chamam desse nome, mas perseguem sem perceber sua existência). São comentários vãos sobre assuntos superficiais e transformações do transcendental para o porco, o medíocre. Adora-se estar triste e mentalmente transtornado o tempo inteiro.

E eu me pergunto: por quê? Por que criamos indivíduos com transtornos mentais desde a infância? Por que brigamos, agredimos, gritamos, ofendemos e encorajamos as pessoas a traumatizar seus filhos da mesma forma que fomos traumatizados? Por que achamos bela a tristeza alheia?

E, após alguns segundos, chego à resposta: porque sempre buscamos ser o que não somos e ter o que não precisamos.