Atemporalidade dos Beatles

2. Flores mortas proféticas

As flores estavam a apodrecer sob a mesa de madeira marrom-escura, o toca-discos refletia Prudence, dos Beatles, o céu estava escuro, o apartamento era pequeno, o ano era 2017 não 1980. Suspirou. Nunca teria a chance de olhar os rostos suados e risonhos, extasiados de LSD, dos quatro integrantes da banda, dois já finados. Nunca andaria com aquele estilo pin-up antigo, exorbitante e elegante ao mesmo tempo. Nunca andaria com roupas coloridas demais sem ser julgada, nunca passaria porcamente um delineador e sairia na rua, sendo ainda elogiada. Nunca mais usaria ombreiras. Provavelmente, demoraria muito para que usasse batons cremosos novamente.

O ano era 2017 e ainda tinha vícios dos anos passados — até o cigarro perdera a fama nesse meio-tempo de 37 anos, mas não importava. Nada substituiria uma cara distraída e desesperançosa olhando para fora da janela suja e expirando uma fumaça densa autodestrutiva. Gostava do jeito como a casa toda tinha um cheiro de tabaco misturado com menta e perfumes adocicados. Gostava do jeito como sua mesa amadeirada se impregnava com os odores, tão certeiros e inevitáveis. Gostava de como o apartamento inteiro pegava o seu cheiro, como cheirava a apartamento e vice-versa. Era este o seu cheiro: indiferença. Quando você sente alguém passar cheirando a cigarros, o que você sente? Indiferença. Quando você vê alguém fumando, o que você diz a você mesmo? “A vida é dele. Ele se destrói se quiser, faz o que quiser.” — indiferença.

Prudence estava acabando e ela não sentia nenhuma prudência. Na verdade, não sentia muita coisa, próximo do nada. Estava vazia, a única coisa que a preenchia era a música nos ouvidos e a fumaça nos pulmões. Às vezes, os goles de água. O acústico fazia seus olhos fecharem em apreciação, parecendo ser feito exatamente para seus ouvidos.

Look around…

Não havia nada ao seu entorno.

Dear Prudence, won’t you come out to play?
Dear Prudence, greet the brand new day!
The sun is up
The sky is blue
It’s beautiful
And so are you.
Dear Prudence, won’t you come out to play?

Não. A prudência estava tão abandonada quanto ela. Não. Ela não sairia para brincar, não saudaria o novo dia. Veria o sol brilhando no topo do céu azul infinito da sua janela limitada, apreciaria em silêncio toda a sua beleza, sem sequer acreditar fazer parte dessa. Se Deus existe, ele só fez a Natureza à sua imagem e semelhança. Os humanos? São feitos de enxofre e gases tóxicos. Dedo podre, tudo que tocam se liquefaz. Se Deus existe, só há uma única beleza: a Sua, e, portanto, a da Natureza. Ela não faz parte da beleza que Deus criou. Ela fuma na sua janela pequena e suja, porque a prudência não existe. Ah, mas era uma ótima desculpa para agir inconscientemente; a prudência não apareceria. Não hoje, pelo menos.

O disco roda alguamas vezes — While my guitar gently weeps começa.

I look at the world and I notice it’s turning
While my guitar gently weeps
With every mistake, we must surely be learning
Still my guitar gently weeps

A janela se torna ainda mais pequena em comparação à magnitude do que existe do lado de fora. Choros. As pessoas andam, sem se entreolharem, rodando, rodando, rodando ao redor do mundo, andando em linha reta numa elipse, e rodando, enquanto mandam mensagens heartbreaking nos seus celulares de última geração. E ela chora, chora porque a efemeridade é expressiva, é significativa, é gritante; ela chora e derrama lágrimas, uma cachoeira, um rio, um oceano… e ela se aquiesce.

O disco troca.

Blackbird singing in the dead of night
Take these broken wings and learn to fly
All your life
You were only waiting for this moment to arise

E ela chora mais, porque o cigarro está acabando e ela precisa ser livre. E acende outro cigarro entre soluços, observando que o mundo que gira com insignificância é o mesmo que proporciona a liberdade. Quê é liberdade? É fumar esse cigarro em paz no vazio da noite. O cigarro é sua asa quebrada…

Três faixas depois, vem o apogeu:

She’s not a girl who misses much (do do do do do do, oh yeah)
She’s well acquainted with the touch of the velvet hand
Like a lizard on a window pane
The man in the crowd with the multicoloured mirrors
On his hobnail boots
Lying with his eyes while his hands are busy
Working overtime
A soap impression of his wife which he ate
And donated to the National Trust

Não, não fazia pouco caso. E quando Beatles parecia não ter forma ou sentido, ela entendia: a carícia de veludo fazia tanto sentido como a casca de um lagarto suicida, morrendo para tocá-la. A contradição nos espelhos coloridos versus as botas de tachões nas solas. Seus olhos também mentiam como os do homem, suas mãos também trabalhavam acima do tempo estabelecido. Autofagia porca e venda rasa.

I need a fix ’cause I’m going down…
Down to the bits that I left uptown
I need a fix ’cause I’m going down.
Mother superior jumped the gun (x6)
Happiness is warm gun (bang bang, shoot shoot)

Certamente precisava de uma dose, porque, sim, estava decaindo, e decaindo… precisando recompor seus pedaços que deixara por aí, em cada canto, em cada rua que pôs os pés. Lembrava-se de como sempre tivera essa facilidade de deixar seus pedaços, como se fosse frágil demais para manter-se inteira. Talvez ela era, mesmo. Talvez sua carne fosse podre e ela estava se decompondo. O álcool era, então, a salvação, a cura temporária…

A Madre Superior esfregou o cano da arma na sua cara:

a felicidade é SIM uma arma morna.

Sentia a toxicidade da guria saltitante da esquina atingir-lhe as vísceras.

Suspirou com a ironia… Beatles é, realmente, atemporal.

O disco parou.

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