Cadáveres andantes versus vivos atuantes
Existe uma linha tênue entre estar vivo e estar morto. Como se vive sem ar? Não há vida, mas ainda sim, há. Explico: existem momentos em que o desespero, a ânsia, o desejo, a tontura ou a ira sugam todo o ar diretamente da fonte de vitalidade do ser humano — os pulmões. Realizar trocas gasosas é pré-requisito para estar vivo, contudo, ser uma espécime que respira e interage ultrapassa as barreiras fisiológicas: é preciso sentir-se, efetivamente, na Terra para nela estar.
Conheço pessoas vivas que estão mortas. Andam por aí como moribundos, distribuindo olhares caídos e gélidos, sem aura ou espírito visíveis. Não circula oxigênio pelos pulmões destas: a pele está toda repuxada para dentro do corpo, e os músculos, frágeis e sem tônus, assemelham-se a uma folha de papel; o tórax é um buraco oco. A mente é vazia, como a de um zumbi, e agem da maneira mais mecânica e automática possível. O peito pesa com a constante ausência de sentido, o coração bate seus últimos suspiros, e assim os dias seguem, um após o outro, sem muito ânimo.
Perceba: são cadáveres com funções fisiológicas perfeitas, porém sem ar nos pulmões, sem aquela excitação de viver ou inspiração súbita que dá propósito a todo o resto. São humanos que transitam na linha tênue entre estar morto e estar vivo — vida e morte — porque, ao menos para mim quando alguém se refere à vida, entende-se toda a sua complexidade e não apenas o fato de o indivíduo respirar ou não. Transitar nesse fio extremamente fino é perigoso e insalubre, significando, muitas vezes, no comprometimento da saúde mental daquele que ornamenta saltos em áreas tão ínfimas.
Certamente, então, existem momentos em que nós mesmos nos encontramos nessa linha tênue, sentindo todo o impacto da falta de ar circulando em nossos sistemas respiratórios. O que nos diferencia — nós, vivos atuantes — dos cadáveres ambulantes é nossa capacidade de sair dessa linha, seja da forma mais elegante possível, seja da forma mais precária; o que importa, acima de tudo, é que nós somos capazes de sair desse limbo que nos puxa para ele o tempo inteiro. É normal que nos sintamos estáticos e inúteis de tempos em tempos, mas a nossa habilidade de, vulgarmente falando, ‘dar a volta por cima’, é o que nos situa no mundo, possibilitando, então, a nossa respiração e a normalização do fluxo sanguíneo.
