Cadáveres andantes versus vivos atuantes

H.
H.
Aug 26, 2017 · 2 min read

Existe uma linha tênue entre estar vivo e estar morto. Como se vive sem ar? Não há vida, mas ainda sim, há. Explico: existem momentos em que o desespero, a ânsia, o desejo, a tontura ou a ira sugam todo o ar diretamente da fonte de vitalidade do ser humano — os pulmões. Realizar trocas gasosas é pré-requisito para estar vivo, contudo, ser uma espécime que respira e interage ultrapassa as barreiras fisiológicas: é preciso sentir-se, efetivamente, na Terra para nela estar.

Conheço pessoas vivas que estão mortas. Andam por aí como moribundos, distribuindo olhares caídos e gélidos, sem aura ou espírito visíveis. Não circula oxigênio pelos pulmões destas: a pele está toda repuxada para dentro do corpo, e os músculos, frágeis e sem tônus, assemelham-se a uma folha de papel; o tórax é um buraco oco. A mente é vazia, como a de um zumbi, e agem da maneira mais mecânica e automática possível. O peito pesa com a constante ausência de sentido, o coração bate seus últimos suspiros, e assim os dias seguem, um após o outro, sem muito ânimo.

Perceba: são cadáveres com funções fisiológicas perfeitas, porém sem ar nos pulmões, sem aquela excitação de viver ou inspiração súbita que dá propósito a todo o resto. São humanos que transitam na linha tênue entre estar morto e estar vivo — vida e morte — porque, ao menos para mim quando alguém se refere à vida, entende-se toda a sua complexidade e não apenas o fato de o indivíduo respirar ou não. Transitar nesse fio extremamente fino é perigoso e insalubre, significando, muitas vezes, no comprometimento da saúde mental daquele que ornamenta saltos em áreas tão ínfimas.

Certamente, então, existem momentos em que nós mesmos nos encontramos nessa linha tênue, sentindo todo o impacto da falta de ar circulando em nossos sistemas respiratórios. O que nos diferencia — nós, vivos atuantes — dos cadáveres ambulantes é nossa capacidade de sair dessa linha, seja da forma mais elegante possível, seja da forma mais precária; o que importa, acima de tudo, é que nós somos capazes de sair desse limbo que nos puxa para ele o tempo inteiro. É normal que nos sintamos estáticos e inúteis de tempos em tempos, mas a nossa habilidade de, vulgarmente falando, ‘dar a volta por cima’, é o que nos situa no mundo, possibilitando, então, a nossa respiração e a normalização do fluxo sanguíneo.

É preciso sentir-se na Terra para nela estar efetivamente.

)

H.

Written by

Um pouco mais que um grão de areia, um pouco menos que um cavalo.

Welcome to a place where words matter. On Medium, smart voices and original ideas take center stage - with no ads in sight. Watch
Follow all the topics you care about, and we’ll deliver the best stories for you to your homepage and inbox. Explore
Get unlimited access to the best stories on Medium — and support writers while you’re at it. Just $5/month. Upgrade