Canto

Indesejo usar a dicotomia de ‘nós’.

Não são os nós dos meus dedos versus o pronome que vos une.

É o canto versus o canto.

Trata-se de quando estou solitária, reúno-me às paredes e produzo sons harmônicos — ou talvez nem tanto — com o ar por entre as cordas vocálicas. Trata-se de quando o exílio dá-se com os pensamentos impróprios, não concisos, mesmo obscuros. Trata-se de quando as palavras não fluem conforme desejo, embaralhando-se, formando um outro alfabeto, este mais impreciso, mais provido de insignificância. Trata-se duma inconsciência com vida própria.

Murmuro Beatles quando sinto-me extraordinária. The Neighbourhood sai de meus lábios quando estou nostálgica. Red Hot Chili Peppers e Strokes quando sou imbatível. Beyoncé quando estou enérgica. Finalmente: Jaymes Young quando estou triste, com resquícios de desapontamento e ressentimento, quando estou petrificada ou inundada de sentimentos incoerentes. Às vezes, num momento de fraqueza romântica, sussurro Lana del Rey, com medo que me escutem e pensem num apelo silencioso. O comum em todos os cenários é o concreto que me abraça, reconfortante, ouvindo meus lamentos e meus espantos; minhas glórias e minhas lágrimas; meus gritos e meu silêncio. O canto versus o canto.

O canto versus o canto.

A voz que preenche o vazio; o vazio que me preenche. A música que transborda nos ouvidos; a música que ricocheteia as paredes e dissipa-se no ar, deixando um espaço em branco, incompleto. Estar ; estar plena. Cantar no canto é retroceder e avançar no tempo ao mesmo tempo em que se está no presente; porque, ali, encolhida no chão e parede frios e duros, sentindo as roupas tingirem-se levemente com a tinta enevoada, deixando a cabeça pender nos joelhos, sou infinita; pois, naquele pedaço de mundo, o tempo imobiliza-se e demora a passar, sofrido, sangrento, sozinho e miserável, não misericordioso. Porque sou o próprio tempo quando admito minha própria existência, seja ela triste, alegre, colérica ou ansiosa.

E, por ser o próprio tempo, sou o mundo.