Cartas-sentimento nunca enviadas

São quatro: carma, desgosto, lascívia e amor

1.

Querida E.,

Foi o Carma. Seus olhos verdes, os lábios vinho, o brilho natural das bochechas e os gemidos suaves — tudo foi Carma.

O adeus também.

Com amor,

P.


2.

B.,

Cada mentira descoberta foi um ano a menos da minha vida sendo desperdiçado. Você não vale a voz, a saliva, o gesto ou o desespero. Tua voz me soa falsa, teu perfume me lembra podridão. Nunca me adaptei à tua aura perturbadora. Pus a culpa em mim, por isso que até tanto durou, mas a máscara da inverdade logo cai: você caiu por terra e voltou para onde pertence: camada vulcânica. Onde nada floresce, sobrevive ou respira.

Até nunca,

P.


3.

A.,

Quando caí em sua cama pela primeira vez, não pensava em nada. Éramos um e éramos nada, ainda tudo.

Na segunda vez, enquanto você me despia, pensava no quê poderia fazer para te dar prazeres além dos mundanos, no campo espiritual, místico. Acabei ficando no topo.

Na terceira, já pensava em suas mãos, perdendo a habilidade de provocar-me calafrios.

Na quarta, após a consumação, soube que era a hora do adeus.

Já é a quinta… e eu sinto a sua falta.

Com desejo,

P.


4.

G.,

Quando num primeiro momento, num bar malcheiroso salvo por seu perfume, avistei-o com olhos carregados de algo que me parecia tristeza. A veracidade neles logo me atraiu: precisava vê-lo, arrancar de você algumas palavras sinceras e dolorosas.

Você me olhou profundamente, elogiou-me a beleza, incentivou-me poesias. Sua língua, ao encostar na minha, prometeu-me paz de espírito. Suas mãos, tateantes, pesarosas, disseram-me: esteja comigo. E eu estive.

Cada noite foi uma noite. Em seus olhos já não vejo melancolia ou infelicidade. Vejo um brilho que ainda não tem nome, mas insistem em chamar de amor.

Meu coração está confortável com a escolha de palavras.

Com um beijo,

P.

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