Categorização de pretéritos

E como eles afetam a sanidade mental; uma análise tímida e íntima

Há passados que possuem pernas, e esses são os tipos mais destrutivos. Existem, ainda, aqueles que são apenas figuras fantasmagóricas, como um Gasparzinho, puramente inofensivos; e também os que permanecem no fundo da memória até que você libere o gatilho para que apareçam.

Eu, particularmente, sofro com a primeira espécie.

Possuir pernas não é um aspecto positivo. A função das pernas é a locomoção, a liberdade, a autonomia. Lembranças não deveriam possuir pernas, porque, além de constituírem uma era longínqua, são figuras estáticas. Eu não deveria me sentir como numa tempestade ao, repentinamente, ser infestada por memórias assombrosas (apesar de essa característica parecer pertencer à segunda categoria de passados, descritas anteriormente); não deveria sentir o peito pesar por assuntos que me ocorreram sem quaisquer avisos prévios. Os passados ambulantes simplesmente aparecem no decorrer da sua vida, não importa a sua idade, com quem você está, ou o que está fazendo. Você é um novo indivíduo? Ótimo, mas sempre terá o seu.

É como se uma onda me atingisse e eu me afogasse por, no mínimo, uma hora. Ressurjo em meio ao desespero e, logo após, afundo-me novamente. Tenho dois segundos para respirar e passo vinte minutos engolindo água, atônita, afoita, desacreditada. Esse processo se repete num loop viciante — e aqui a hipérbole é de extrema importância.

Depois da arrebatadora sensação de quase morte, vem-me uma paz inexplicável. Por alguns dias, ou meses, ou semanas, eu permaneço normal e serena, seguindo minha vida como se eu não estivesse passado por uma experiência traumática, daquelas que deixam sequelas profundas tanto psicológicas quanto físicas.

É claro, é neste instante que as lembranças dos tipos Gasparzinho e gatilho entram. Raras vezes nesse momento pacífico encontro-me pensando em como me afetaram, em como a vida era diferente numa época remota e quase tão distante que se tornava impalpável; às vezes, uma única palavra, um cheiro, um gesto e/ou uma mania são reações que me bastam para reviver o inferno por, no máximo, cinco segundos. E cinco segundos são o tempo necessário para voltar a me devorar de dentro para fora, numa espécie de autofagia dupla (Juliana — aquela que ‘se come a si mesma’).

O presente é necessário. Aliás: o presente é o foco, não deveria existir nada além dele. Contudo, o passado é um fato, é inegável. É ele o meu combustível, o que me movimenta, o que me faz cinética e não estática. É o seu incrível poder de atormentar, afligir, torturar e perturbar que o faz ser dinâmico — e o que automaticamente me confere essa dinamicidade — ; além de ser o que caracteriza, basicamente, o passado com pernas longas, maltratadas e raspadas. As demais espécimes são sustentadas por memórias de curto prazo, e a inocência com a qual aparecem não são furiosas ou chacoalhantes. Não me fazem ter ataques de epilepsia ou me roubam o sono, ou, ainda, aprisionam-me ao vício.

Mas o pretérito incorporado, o qual decidiu calçar saltos altos para mascarar-se … esse sim, meu bem, esse sim me mata aos poucos.

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