Conte-me

Qual a minha história?

A minha história é não ter história.

Há algum tempo, pergunto-me sobre qual o sentido. Qual o real sentido de “conte-me mais sobre você” ou “fale-me uma coisa interessante sobre ti”? Qual a minha história? O que possuo de melhor para contar? O que, dentre todas as moléculas que me constituem, faz-me interessante o suficiente a ponto de merecer ser contada para alguém? E, talvez, o ponto mais interessante para mim: por que temos essa necessidade urgente e súbita de conhecer as pessoas afundo?

Não sou o tipo de flor que se abre a qualquer abelha. Não sou o tipo de menina que, num bar, necessita de se aproximar imediata e intelectualmente de um rapaz, com a enganosa esperança de que me torne, sobretudo, atrativa aos olhos desse. Não sinto essa súbita necessidade de dizer tudo sobre mim e conhecer tudo sobre você; às vezes, faço questão que permaneçamos desconhecidos, para que eu possa, assim, congelar em minha mente seu sorriso alegre e seus olhos perturbadores. Por que estragar a inocência, ou a falta dessa, com sentimentos atribuídos a palavras que, por sua vez, transformar-se-ão em sons — tais quais, uma vez ditos, são impossíveis de se desfazer? Uma vez proferidas, há um mundo em consequência dessas pequenas palavras; um mundo que pode ser perfeitamente evitado.

É por isso que me abstenho: não tenho história. As minhas mágicas permanecem intactas num local escuro e reservado, para não estragar a efemeridade do tempo, dos lugares e das pessoas.

Qual a sua história?

One clap, two clap, three clap, forty?

By clapping more or less, you can signal to us which stories really stand out.