Desabafo rima com desabo

Algo íntimo, uma avalanche violenta e confusa; diário um

Imagem por Cepums, no Deviant Art
Por sentir demais, acabo sentindo nada.

Torpor: é o que me domina. A cada instante, a cada realização frustrada, cada passo em vão — tudo se resume a ele, o tempo inteiro, todas as vezes em que falho.

A cobrança é constante, confesso. O tempo inteiro:

— Se você não conseguir, tudo bem. A vida não se resume a isso. Tente novamente e conseguirá.

Mas também:

— Você precisa conseguir.

A incompetência me envolve num abraço escuro, cego. Vejo o sucesso inatingível e não o alcanço. Vejo o sorriso do amigo e sequer abro os lábios. Mais tarde, deito-me e penso sobre o que fiz de errado, o que poderia ser melhorado. Choro por alguns instantes, incômoda, angustiada. Depois do choro, não há nada — apenas o torpor ali, cercando-me inteira. Olho-me no espelho e não vejo nada. Deito e a única coisa que me vem é sono. De tanto sentir… não sinto. Fico estática até sentir a dor novamente.

Esqueço completamente que:

  1. Sucesso é algo relativo.
  2. Existem coisas na vida que demandam tempo.
  3. A falta de energia é temporária.
  4. … assim como a tristeza. Use-a como combustível para tentar novamente. (em casos de depressão: procure um especialista e se trate. É importante! É injúria psicológica e mental!)
  5. Tente novamente. Se não deu hoje, tente amanhã.
  6. E, finalmente: a vida não se resume a isso. Tudo bem não conseguir.

São as frustrações que fazem a mulher — e o homem. Tudo bem você não conseguir sua vaga na Universidade. Se é algo que quer muito, tente novamente. Tudo bem não conseguir aquele emprego sonhado logo de cara. Se você o quer, tente novamente. Tudo bem ir mal naquela prova difícil que você perdeu noites de sono estudando. Recupere na próxima. Processo de cura e fortalecimento.

A vida nos diz que está tudo bem falhar, mas não é o que os atos alheios traduzem. A praticidade de ser feliz está em ignorar todos os atos e seguir o que a vida aconselha: viva, viva muito e viva bem. Se é de sua vontade, batalhe; se não, mude.

Penso no quão hipócrita sou por apoiar o “faça o que eu digo, não o que eu faço.” É.

Dou ouvidos à voz na minha cabeça que me diz insanidades dolorosas. Ignoro a parte sã. Sou masoquista ou insana? Sensata por ser pessimista de natureza? Não. Só pessimista. A sensatez não advém de características, conceitos. Meu pessimismo provém do meu medo do fracasso, de não ser suficiente. E quem é o tempo todo? O que é ser suficiente? É encher o branco dos outros ou o meu próprio? É preencher o meu. A suficiência vem de nós mesmos. Primeiro precisamos ser autossuficientes para depois aceitar o que vem dos outros — como complemento, não prioridade.

Num sopro, fico estática. Choro. Estática. Choro. Torpor. Nada.

Vazio. Escuro.

Loop. Ciclo.

E ser paranoico é o que quero para os outros? Não. Não quero que sejam desacreditados como eu. Prefiro fazê-los acreditar nos clichés verdadeiros.