Oração

“No Return” by Inextremiss, no Deviant Art

Retesou-se, impassível
“Qual! Está a falar besteiras, Coral”
“Pois não estou, Gil, 
Não é minha a culpa que sente por não entender”

As órbitas fundiram-se com os ossos
“Saiba que entendo, sim, muitíssimo, 
As peripécias bestas que o coração vosso
Insiste em chamar de pai-nosso”

Riu-se, extasiada 
“Gil, não é pai-nosso esse ardor, 
Não é divino esse calor
Que me atravessa e me arremessa

Muito pelo contrário: 
É bem mundano esse honorário 
É benéfico esse dano
Que me puxa e me suga ao centro da Terra”

O rosto tingiu-se de vermelho-sangue
“Pare de me caçoar, Coral,
Em seus olhos vejo o imoral, 
Em suas atitudes, o atemporal

Em seu sorriso, a insanidade
Que impera em todo esse seu ínfimo ser.
Pecado! E o que a atinge, garota, não é o mundano
Nem o divino: é Lu em pessoa, O Profano”

E Coral, cínica, pôs-se a rir
Com o corpo todo tremeliquento,
Com a língua presa ao céu da boca,
Presa a palavras ocas.

Os céus abriram-se, negros 
Gil — seus lábios a professarem sonetos
Os joelhos a encontrarem a terra áspera 
E, a ricochetear os ares, o pai-nosso cuspido da cólera

Não era castigo divino,
Nem dano mundano,
Sequer praga do Profano:
O pecador prevalece sobre o adestrado

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