Procura íntima

Algo sobre mim e o mundo

Num ínfimo espaço-tempo, em algum canto da minha mente inquieta, peguei-me ponderando sobre quais meus reais anseios, quais meus reais arrepios. Sobre o que me tirava do chão, o que alterava minhas ordens naturais, o que movia minha feminilidade e, às vezes, virilidade. Basicamente uma análise SWOT (Strengths, Weaknesses, Opportunities and Threats — ou FOFA: Forças, Oportunidades, Fraquezas e Ameaças) íntima, elevada a outro nível. Enquanto pensava, olhei para o mato a minha frente: não me inspirava. Na verdade, o problema não era o mato em si — concordo que há belezas visíveis na natureza e que o silêncio é precioso e sábio. Contudo, no verde e vivo não encontro muito para dizer, para me expressar. Já no urbano… a confusão de pessoas, o desespero, os sorrisos, choros e gritos; os corpos diversos, bares interessantes, brigas irritantes — tudo indica inspiração. Quero dizer: há assunto, não há? Por não existir silêncio, há som, assunto, moribundos. Você sente e dói e chora e ri e briga e sente e morre e isso gera inspiração, gera escrita, seja ficção ou não ficção, seja por vício ou por vontade de transformar o mundo. Você vê o errado e denuncia. Você vê o certo e ovaciona. Você vê o duvidoso e questiona. Então, o que é meu combustível? O urbano. Considero-me cética demais, estática demais; e o que me move são as possibilidades alheias, porque as minhas não me são atrativas. Não que elas inexistam ou que sejam pobres; simplesmente há uma válvula minha que não me permite sentir demais em x situações e falecer de tanto sentir noutras. Uma bipolaridade atenuada, opcional, abraçada. Ah, o que me move… são as pessoas que conheço, não conheço, que crio, que vejo, que sinto e que toco. É a vida que passa descompassada, é o espaço-tempo infinito cheio de infinitudes, são os livros, queridos, e as histórias que ouvi, vi, escrevi e senti, uma eternidade de i’s. Assim, não me arrependo do meu ceticismo — assim, faço minha análise FOFA com prazer, porque, na verdade, o mundo como um todo (urbano e natureza) é um ser complexo bipolar que me permite ser, estar e pensar.