Rachaduras

Não são apenas lábios

A carne vermelha dos lábios disfarçam bem as rachaduras destes, cobertas suavemente pelo sangue da mesma cor. O mau hábito é culpa minha inteiramente, confesso, mas é reconfortante saber que não são aparentes, mesmo quando vistos de perto. As temíveis rachaduras, embora invisíveis, harmonizam com o resto do meu rosto — desde os cachos ao formato redondo dele, desde os cílios ao queixo levemente arrebitado.

Ainda sim, mesmo sem que você consiga vê-las, elas estão presentes. As bordas dos meus óculos quase nelas encostam, desejando a carícia distante, impossível. Quando sorrio, sinto-as abrirem-se ainda mais, quase estourando, e, quando passo a língua pela minha própria boca, identifico a aspereza do toque e o gosto de ferrugem. A cada segundo, as rachaduras fazem questão de reafirmar sua existência.

As trincas são reais, porém meus lábios também são. Para que existam, é preciso que eu exista. E não importa o quanto lute: meus lábios serão sempre solos ressecados quando a temperatura amenizar, quando eu estiver ansiosa ou com raiva ou quando simplesmente meu corpo desejar. As pomadas apenas servem para atenuá-las no dia seguinte.

Olhando-me de perto, você verá uns lábios grossos, sempre cobertos por uma fina camada de algum produto; e nas profundezas daquele plano invisível, quando tudo que aquelas fendas emanarem for beleza, sempre existirão as malditas rupturas.