Sentar-se à mesa

O advogado ajeita o chapéu na cabeça, capturando a xícara de café e deixando o líquido arder-lhe a garganta como se fosse uísque. Mantém os olhos baixos e sombrios, o que acarreta olhares alheios. Cruza as pernas e ajeita a gravata. Bebe novamente. Por fim, suspira, evidentemente pensando — em algum processo? Em alguma cláusula? Em algum cliente? Não. Tudo que preenche sua mente é o aroma, o sabor e a cor do café; e como a falsa frieza se assemelha à mulher à sua frente.

A escritora passa os dedos pela taça de vinho, pensando na cor escura desse. O calor das fendas escuras até o líquido provavelmente tem as pessoas pensando: “Ela está a produzir poesias na mente, vê? Vê como é profundo o olhar? Vê a intensidade? O vinho e o clássico, unidos”. Está errado. O que ela realmente pensa é: “A semelhança entre isso é o sangue é perturbadora”. E por que havia ela de comparar os dois fluidos incomparáveis, tanto em espessura quanto em quantidade? Porque, secretamente, desejava serem os dois frutos do mesmo reino.

As duas imagens quebradas unidas são o símbolo do sucesso: ambos ricos, bem-vestidos e donos de feições tristes, por motivos muito complexos para o ‘senso comum’ compreender. Você já quis ser desse time — o popular. Você já quis se sentar nessa mesa, tomando o mesmo café ou o mesmo vinho, pensando também em como trabalho e prazer se confundem e se fundem em um só âmbito. Ah, mas não o culpo… eu também quis sê-lo.

Durante os cinquenta minutos que eu, você e eles permanecemos nesse bar de paredes brancas, candelabros e vinhos e cafés caros, o casal permanece em silêncio, sempre fitando algo distante, parecendo estar diante de um espelho que os levasse, cada um, a uma dimensão diferente. Não se fitavam diretamente. Pareciam temer a estima ou a fúria do outro. Nosso pensamento mais idiota é: “vê? Vê como tudo é complexo? Vê como transcendem sem sequer ter intenção?” e pronto. Não transcendem porra nenhuma. Evitam um ao outro como o sol evita a lua. Evitam um ao outro como um pecador evita a fúria do Todo Poderoso. Evitam um ao outro como o doce evita aproximar-se demais do salgado.

Evitam um ao outro porque receiam um ao outro.

E porque desconhecem o amor.

E porque amor, às vezes, é a sedução pelo máximo sem ter o mínimo.

O café esfria e o vinho acaba. A escritora pede ao garçom outra taça, o advogado, uma água para limpar o hálito amargo e forte. Pela primeira vez, dois minutos após os cinquenta iniciais, o olhar de ambos se encontram. Durante um instante, captamos algo, uma faísca. Aí entendemos, sem, contudo, precisarmos, sem que escondamos nossa curiosidade e afeto por figuras públicas: haverá poesias e choverão argumentos árduos — um sobre o outro, de tudo que foram, não são e poderiam ser.

E, subitamente, não desejamos mais nos sentar àquela mesa.

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