Tragus — número um

Tragus tragou novamente o cigarro preso nos dedos. A tragada da vez era longa, como se sugasse a vida naquele pequeno veneno, o que era, no mínimo, uma contradição. Quando seus pulmões colapsaram, sendo obrigados a soltar o ar, seus olhos fecharam, extasiados, sentindo suavemente o sabor da fumaça quente e densa. Ao abrir, viu-a dissipar-se no ar. Era a mesma que, há dez segundo atrás, estava dentro dele, entre os órgãos. Sentia o vazio que se formava novamente em seu íntimo, e, contra sua vontade, correu os lábios com urgência ao pequeno toco de tabaco.

No colégio, quando o melhor amigo Dennis apresentou-o ao cigarro, não riu quando esse fez o memorável trocadilho: “Tragus está tragando o cigarro”. Conforme foi se tornando um adulto — do tipo que ele próprio detestava — , ria ocasionalmente da pequena piada ao conhecer alguém. Mulheres, principalmente. Era a desculpa perfeita para oferecer-lhes um cigarro e convidá-las ao seu apartamento mais tarde, porque, Deus, elas ficavam muito bonitas ao sugar o fumo.

Após a quarta tragada simultânea, separada das outras apenas por alguns segundos de alívio pulmonar, jogou o cigarro no chão, pisando em seguida em cima dele. A sua cidade, à qual ele irá se referir como “JP”, era realmente obscura a esta hora da noite. O ar frio fazia cócegas em seu rosto, beirando à mais cliché e tênue linha entre dor e carícia. Os dois extremos. Às três e meia da manhã, apesar de ser uma rua com muitos bares e, consequentemente, muitos flertes, poucas almas se aventuravam fora do conforto e segurança de seus lares. E todas elas estavam certas: JP poderia ser bem perigosa quando queria.

À esquerda, virando numa esquina, viu um bar aberto, mas vazio. Não pôde sequer ver os garçons, o caixa ou o gerente; apenas as mesas do lado de fora, fantasmagóricas. Eram brancas e amarelas, feitas de plástico. O boteco pouco tinha de especial: um estabelecimento casual, não muito limpo. O caixa ficava a um metro da estufa repleta de fritos; a cozinha, separada de todo o resto. Tragus mentalizou: dois fogões sujos de gordura,um armazém de alimentos lotado de caixas dispostas uma em cima da outra, uma geladeira cinza — que algum dia fora branca — , um freezer lotado dos mais variados tipos de cerveja, algumas cachaças e vodcas; o chão empoeirado, manchado de comida, e as baratas e os ratos perambulando por todo o local. Deu de ombros. Pouco importava a higiene do local, sabia que as pessoas iriam comer e beber ali de qualquer modo. O estabelecimento em si só possuía uma utilidade: entrar para pagar a conta. Era pequeno em demasia, um dos típicos do local. A entrada era branca e, acima, via-se uma espécie de letreiro escrito “Clube dos vinte”.

Após alguns segundos procurando inutilmente por alguma alma, decidiu continuar a pequena caminhada noturna.

Veja bem: caminhar para ele era uma atividade formidável. À noite, então, tornava-se uma aventura peculiar, um prazer desconhecido por muitos. Isso porque, durante o dia, a alma pesava com todas as responsabilidades, com o desdém humano, com a falta de sensibilidade… com os males do mundo, generalizando. À noite — agora, quase às 3:45h da manhã, inutilmente procurando alguém que dividisse com ele o orgulho de noturno — , os dissabores desapareciam e um outro Tragus emergia das suas entranhas: alguém mais paciente, excepcional, extrovertido. Alguém que não lidaria com os humanos e todas as suas merdas, seus egoísmos e narcismos. Não com todos eles, pelo menos.

Após três quarteirões da esquina que havia virado, decidiu repousar no beco à direita. Tirou do bolso o maço de cigarros, apanhou um e se pôs a fumá-lo, com veemência.

O vício lhe caía bem. Muitos dizem que envelhece, provoca câncer, provoca dores… ele certamente não duvidava disso. Contudo, cada vez que o tinha entre a boca, era um refúgio. E, como todo refúgio, era essencial para a manutenção de sua sanidade. Ele não saía julgando o excesso de açúcar de um ou a busca da perfeição do outro… seria demais que ninguém se metesse em seus pulmões?

Absorto, não notou quando uma figura feminina apareceu no início do beco, observando-o. Tragus retribuiu o olhar com a mesma intensidade, juntando as sobrancelhas como se lhe perguntasse “o que está olhando?”, sentindo o tronco tensionado, pronto pro possível embate.

Muitos diriam que a feminilidade não é, de modo algum, ameaçadora. Ele diria que, bem, foda-se o gênero, todas as pessoas são igualmente medíocres e potencialmente perigosas.

Tragou o cigarro mais uma vez e, quando soltou a fumaça, ouviu ecoar a risada escandalosa que fluía dos lábios da mulher. Foi inevitável não acompanhá-la: o riso era tão gutural e legítimo que chegava a contagiar. Às vezes, um homem pode se permitir ser contagiado por algo que valha a pena.

— Pensou que eu era uma maníaca, Sr. Estou-fumando-no-fim-de-um-beco-de-um-bairro-perigosíssimo-à-noite?

— Como adivinhou meu nome? — Fingiu surpresa, abrindo a boca num círculo perfeito e, logo depois, tampando-a com a mão que segurava o cigarro.

— Tenho uma intuição muito atiçada, senhor.

— Vejo isso.

O sorriso dela fez com que o cérebro de Tragus parasse de funcionar por um momento. Toda a atividade desse cessou, a parte racional desligou-se e os sentidos tornaram-se altamente estimulados. Podia sentir que ela também sentia a vidração dos olhos dele nos seus e a energia que fluía. Era como uma placa dizendo “pare!”, embora ela não quisesse parar. Assim, ignorou a voz que rugia dentro dela.

Ao mesmo tempo em que o cérebro do rapaz implodia, ele assimilava cada centímetro dela: os cabelos, longos e lisos, presos despreocupadamente num coque, óculos pretos no rosto, lindos olhos castanhos, os quais tinham enormes íris; o pescoço, fino e delicado, escondido na gola da blusa preta e de gola alta, com botões, que vestia; os lábios carnudos e rosados e corpo esticado e modelado, cuidadosamente embalado em roupas que não mostravam nada mais que mãos e metade do peito do pé. Lambeu os lábios discretamente, sentindo-se um predador. Eram os hormônios falando.

— Posso? — a menina diz, apontando para a mão de Tragus, que ainda estava em sua boca. Ele sorriu.

— Claro, é só chegar mais perto. Ou você espera que ele vá até você?

Ela retribuiu o sorriso, destemida. Caminhou a passos lentos e curtos, até chegar a uma distância segura dele. Parecia provocar-lhe, e estava conseguindo. Ele sentia arrepios percorrendo toda sua espinha, arrebatando-o, como ondas chocando-se contra seu corpo. Estendeu o cigarro na direção dela, sério.

Viu como ela tragava tão profundamente quanto ele, e como os olhos se fechavam da exata forma como os dele também se fechava. Pior: viu a urgência de tragar uma segunda vez, pouco tempo depois da primeira. Expirando a fumaça aos poucos pela boca e pelo nariz, devolveu-o o cigarro. Atordoado, tratou de pô-lo à boca novamente, sentindo o leve gosto dela, ou pelo menos fingindo que o sentia, o que só serviu para fomentar-lhe sentimentos esquisitos. Suspirou, perguntando-a:

— Então, o que faz aqui a esta hora da noite?

— Chamo-me Raquel, prazer — estendeu a mão a ele, o qual a pegou de prontidão, sentindo o aperto forte e seguro.

— Chamo-me Tragus, e gostaria de ter minha pergunta respondida.

— Tragus? É algum tipo de piada?“Tragus traga um cigarro” — riu, debochada.

— Não é nenhuma piada, embora pareça. — disse, sério.

— Oh, me desculpe, Tragus. É um nome interessante. Faz jus à minha primeira impressão de você.

— Espero que faça, realmente.

— Estou apenas caminhando. Sou uma pessoa noturna.

Fascinado, mal podia acreditar naquelas palavras. Eram como entregar doce a uma criança: a sensação mais pura de agradecimento.

— Eu também, Raquel.

— Vamos ser noturnos juntos, então? — Raquel apontou para a entrada do beco, enquanto a outra mão estendia-se novamente a ele, convidando-o a pegá-la. Ele aceitou a proposta.

Após passar por outros bares idênticos àquele relatado no início, um silêncio devastador instalou-se sobre os dois, uma espécie de tensão quase palpável. Timidamente, a moça acariciou o ombro de Tragus, fixando os olhos na camisa do rapaz. Esse, por sua vez, conteve o riso quando ela disse:

— Não vai me convidar a conhecer seus aposentos?

Direta e eficiente: Tragus gostava desse tipo. O tipo que cansava facilmente de joguinhos e estava disposto a dar e receber o que queria. O tipo independente, que não ligava pra opinião alheia. Para ele, ela era um sonho, um dos irreais. Quando Deus enviaria algo tão raro, justo para ele? Era mais compreensível Lúcifer presenteá-lo com as chatas e mimadas. Sem hesitar, ele disse:

— Vamos. Vou mostrar-lhe onde toda a beleza do mundo se concentra.

Não era preciso andar muito para chegar ao apartamento do homem.

Contudo, a caminhada que durou, no máximo, dez minutos, pareceu dez horas. Ao subir as escadas, ele focava nas paredes e, às vezes, no chão, para não parecer algo que não era perto dela: descontrolado. Ela, ansiosa por contato, roçava levemente os dedos nos do rapaz, numa carícia disfarçada. Sorria para si mesma, desejosa.

Quando ele, de pé em frente sua porta, tentava, sem sucesso, enfiar as chaves na fechadura, o corpo dela encostou em suas costas. Sentiu os seios, aparentemente apenas coberto pela blusa preta, roçar nele, e as mãos dela acariciarem-lhe o cinto. Engoliu em seco, conseguindo abrir a porta.

Girando o corpo, Tragus pegou-a pela cintura. Entrando em seu apartamento e, logo depois, fechando-o, encostou-a na porta e segurou-lhe as pernas. Os olhos dele estavam fixos nos dela, transpassando a excitação do momento. Rebolando os quadris levemente, sentiu-a arfar, abrindo a boca para ele. Apoderou-se dessa, sentindo o gosto de menta tirar-lhe todos os sentidos. Numa espécie de dança íntima e sensual, ele continuou fazendo-a sentir as consequências físicas do efeito dela nele — a ereção. Ela não parecia objetar.

Caminhou a passos lentos para o sofá. Raquel, além de uma direta, era uma habilidosa tiradora de roupas. Fê-lo com muita rapidez e eficiência, rapidamente ficando nua para ele. Ficando de joelhos, Tragus beijou-a desde o pescoço até a entrada do ventre, do qual era difícil manter os olhos afastados. Ali, arrancou suspiros e gemidos roucos da boca da mulher, que se abria cada vez mais para ele. Raquel sentia que ia explodir — assim como ele. O controle era difícil de ser mantido. Com muita força, segurando os quadris dançantes da moça no lugar devido, ele a fez gozar, porque não há outra palavra cabível para o que acabara de acontecer. Gozo é gozo, é a liberação dela para ela mesma.

— Agora, Tragus, eu o quero.

Tremendo às tais esperadas palavras, ele pegou-a no colo e deitou-a em sua cama. Observando cada canto do quarto dele, ela apenas se excitava mais. O homem, realmente, possuía um bom gosto: cartazes das mais diversas bandas — que eram as mesmas que Raquel gostava — , fotos de cenários mundias bonitos, outros mais trágicos, alguns tristes; frases belamente pintadas, como “o que é ser peculiar?”, “à noite, não há mazelas” e “há beleza em todo Tragus” estavam dispostos por todas as paredes, além de uns retratos de mulheres bonitas pendurados próximos a seu guarda roupa.

— Raquel, fique de costas.

Ela obedeceu.

— Vou vendá-la, tudo bem?

— Sim, Tragus. Só o faça logo, por favor.

Vendou-a, calmamente, para a tortura de ambos. Assim como ela, ele só queria explodir. Transcender.

— E, por acaso, confia em mim o suficiente para amarrá-la com estas cordas? — esticou os braços, mesmo sabendo que ela não podia vê-las, mostrando as amarras.

— Tragus, faça qualquer coisa. Só venha logo.

Sem se alongar, prendeu-a à base de sua cama, parando para analisá-la por alguns segundos. Era, sem dúvidas, a melhor mulher que já tinha conhecido em poucos anos de existência. Fascinante como nenhuma outra. Pronta para fazê-lo transcender, tão sedenta quanto ele.

É claro, não era a primeira vez que a via, embora fosse a primeira que ficasse surpreso com sua aproximação. Todas as outras, Tragus sabia que ela não poderia vê-lo. Desejou-a desde o momento em que pôs os olhos pela primeira vez nela. Estudou-a como um cientista estuda um futuro experimento. Soube de suas rotas, seus amigos, suas perspectivas de mundo, e tudo sem que ela soubesse. A urgência se tornava incessante — como resistir à queimação da alma?

Pegou o objeto afiado e acariciou-a na barriga. Sentiu o modo como ela arqueava as costas e, ao mesmo tempo, contraía o pequeno estômago.

Tragus jurou a si mesmo que o fez o mais rápido que pôde.

O grito que surgiu do fundo da garganta de Raquel foi o que o fez gozar. Foi a liberação dele para ele mesmo. Enquanto dilacerava sua barriga, subindo aos seios e descendo ao ventre, ele murmurava, inquieto:

— Eu lhe disse, Samanta — sentindo os esguichos de sangue molharem o corpo — que eu valia a pena. Eu lhe disse que em todo Tragus há beleza. Não sou mais o moleque de cinco anos atrás, não sou aquele com quem você mexe e sai ilesa. — à essa altura, a vida de Raquel já tinha sido entregue a qualquer divindade em que ela acreditava — Cresci o suficiente para fazê-la pagar por todas essas cicatrizes em meu corpo. A mazela do mundo é você, Samanta. Foi você quem me fez odiar o sol. Não vou mais temer por sua causa. A culpa é toda sua.

Quando contou o maldito quinquagésimo corte, suspirou.

Sentindo-se renovado, enrolou o corpo sem vida da mulher no plástico especial que cobria sua cama.

— Coitada. Estava tão excitada que mal notou. — Balançou a cabeça, em negativa. — Foi uma pena que precisei matá-la. Eu realmente gostei dessa.

Misturando o sangue, o gosto de Raquel e a fumaça, tragou o seu último cigarro favorito do maço.

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