Viver e deixar morrer

Daqui

O par de rosa jazia, desbotado, num vidro que já fora um pote de azeitonas; previamente colocado com desdém. As suas pétalas sem vida estavam caídas, fitando a mesa de madeira marrom-escuro que as sustentava, dando-lhes o último sopro de vida. Quem chegasse perto poderia sentir as vibrações da morte emanando daqueles seres vivos naquele processo definhante: o aroma era amargo e ácido ao mesmo tempo, os espinhos já não serviam de proteção e as pétalas eram cascas duras que davam àqueles seres características de extrema vulnerabilidade. Você quase conseguia vê-las [as rosas] chorar sangue; você quase conseguia ouvi-las chorar. A tristeza, subitamente, era a única sensação possível de ser sentida.

Quando as flores se renderam ao processo natural (e antropogenicamente acelerado) do desfalecimento, ninguém que passava por aquele antigo pote de azeitonas repleto de água conseguia sentir alguma coisa. Corpos andavam e voltavam, sempre passando por aquelas coisas mortas, e nenhum deles se importavam o suficiente com a vida esvaída do corpo — ou a ausência de vida.

Dado três dias de óbito, as rosas foram trocadas por margaridas. Grandes e brancas margaridas, com miolos amarelos. Suas pétalas estavam firmemente presas ao caule e delas emanava vitalidade. Era humanamente impossível não sentir as melhores vibrações possíveis; os ânimos eram renovados perto das queridas margaridas.

Contudo, algo em torno de três dias após colocadas naquele mesmo recipiente improvisado, a morte também encontrou essa espécie de planta adorável. O definhamento foi ainda mais triste, porque aquele tipo possuía muito mais pétalas e demandava algum período a mais de perecimento. Logo, no fim do tempo requerido, lá estavam elas: deformadas e mortas, dadas à mesa marrom-escuro e à água que não era trocada há dois dias.

Desta vez, quatro dias foi o prazo para trocá-las. A escolhida foi uma orquídea roxa.


Às vezes, é preciso que deixemos as rosas morrerem para que margaridas surjam. E, então, quando as margaridas não bastarem, é preciso deixar vir as orquídeas. E este processo de viver e deixar morrer (como diriam os Beatles) é um ciclo que nunca acaba em vida, encerrando-se na morte material. O recipiente em que são colocadas as flores são igualmente passíveis de mudanças (o que alojava azeitonas, agora abriga flores) e é de fundamental importância também a sua renovação.

Mesmo que contenhamos rosas, margaridas ou orquídeas, a essência nunca muda inteiramente: somos potes. Nossa função é servir de morada e morar também; é conseguir acalentar a morte do outro e a nossa própria morte. Uma via de mão dupla que não funciona baseada apenas na capacidade de fazer com o outro o que gostaríamos que fosse, a nós, feito; mas na habilidade de ser empático e de querer cuidar do outro para minimizar o sofrimento que é falecer…

… ainda tendo ciência que a morte é uma etapa natural e necessária, e que se traduz apenas na interrupção de um ciclo para que outro possa surgir.
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