As mulheres da minha vida

“Não existiria feminismo se existisse igualdade.” Eu mesma, 29/11/2015.

Já escutei algumas vezes que sou feminista. E devo ser. Acho que nem foi uma opção. Sou naturalmente feminista: cresci aprendendo o valor da mulher, e jamais vou tirar isso de mim.

Um grande amigo disse que minha família é feita de mulheres fortes. É mesmo e eu não poderia ser diferente. Mas não sou do tipo que fica esbravejando nas redes sociais — e, veja bem, eu sou super a favor de quem o faz. Não existiria sufrágio universal se muitas mulheres não tivessem jogado suas próprias cabeças à forca. Tenho muito respeito e orgulho das mulheres que gritam. Mas eu não sou assim. Então, por que me acham feminista?

Não sou de me subjugar porque pertenço a um mundo em que os homens dominam — mundo que espero estar em ruína. Olho pra cima, do altos dos meus 160 centímetros de altura. Olho POR cima. E encaro nos olhos. Por outro lado, não culpo todos os homens do mundo pela condição atual da mulher. Já fiz isso, de forma muito inconsciente (se é que o inconsciente possa ser mensurável). E isso me causou muito mal.

O masculino tem muito valor.

Nunca me envolvi com homem que achava que ia tomar conta da minha vida, o que só ratifica meu feminismo. Quero muito dividir a conta e zelo pela minha indepedência. Já fui radical, querendo pagar minha parte sempre. Eu tinha orgulho de poder fazê-lo. Afinal, quantas mulheres não permanecem casadas porque dependem de seus maridos pra comer? Hoje eu penso que, se o cara ganha mais que eu, que pague. Eu também posso fazer a gentileza de pagar a conta outras vezes, assim como eu faria para uma amiga. Gentileza não é sinônimo de machismo.

Tive sorte nessa vida? Não. Sou bem consciente das minhas escolhas.

O que leva uma mulher a casar, ou manter um relacionamento, com um homem que a agride, a maltrata? Eu não consigo entender. Mas consigo entender que nossa sociedade é tão machista que muitas mulheres se tornam machistas porque elas aprenderam, dia após dia, que deviam servir seu homem. “Seu”, não. Qualquer homem. Tenho mais raiva de mulher machista do que homem machista. Mas como culpá-las? Tem gente que não nasce para fazer julgamentos. E só o julgamento transforma a sociedade.

Eu espero muito que, daqui uns 10, 20, 50 anos, a servidão da mulher tenha sido impactada por um milésimo do que estamos discutindo hoje. De forma positiva, obviamente. #meuamigosecreto foi uma iniciativa muito legal, e que expôs a realidade de muito macho escroto. Mas, em minha insignificante opinião (ou não), acho que não temos que ter esses “amigos”. Devemos, nós, mulheres, afastar esses caras de nossas vidas. Amigo o caralho! Sou do tipo que se afasta de pessoas que fazem mal.

#primeiroassédio também foi uma iniciativa importante. Botar pra fora faz bem. Mas também é preciso discutir essas experiências dentro de casa, onde tudo começa. Não ter medo de cutucar a ferida, de botar o dedo na cara dos culpados. Dedo em riste, por favor.

Voltando ao início do texto, contarei um pouco da minha história para explicar como me tornei ‘naturalmente’ feminista.

Meu avô teve dois filhos depois do primeiro casamento. Minha avó se separou antes dos filhos nascerem, até para ele poder registrá-los (legalmente, ele não podia se fosse casado). Você sabe o que significa uma mulher desquitada com três filhas em pleno anos 70, no interior de São Paulo? As pessoas achavam que minha avó era puta. Nada contra as putas, mas ela era uma mulher de valor, e muito difícil também. Teve coragem de fazer isso numa época em que as mulheres nasciam pra casar. Sabe o que a garantiu? Ela trabalhava, não dependia dele para colocar comida na mesa. A vó My teve dois maridos depois, o último deles foi quem eu tive como avô.

Minha mãe descobriu que estava grávida depois de ter terminado o namoro com meu pai. Relacionamento que ia e vinha, mas que ela não quis levar adiante. Ela não contou nada pra ele. A parentaiada ficou azucrinando, então ela o avisou que eu tinha nascido por carta. A gente morava em São Paulo e, ele, no interior. CARTA! Ele veio assim que soube, para me registrar. Quis casar. Ela, não. Ela não só quis me ter como topou fazer tudo sozinha. Faculdade, mestrado, doutorado. Minha mãe deu o couro para me educar e seguir seus anseios profissionais.

Como não amar, admirar, colocar num pedestal uma mulher assim? (Neste texto eu falo um pouquinho dela, se você quiser ler.) Teve pouquíssima ajuda financeira do meu pai e nenhuma ajuda física, psicológica, para me criar. E, sem querer me gabar, acho que ela fez um belíssimo trabalho.

Tenho outras histórias de mulheres fortes da minha família. Mas, ainda bem, elas estão vivas. Então seria injusto não contar a história inteira. Elas também me orgulham e fazem coro na força dessa família feminina. Feminista: não por opção, mas porque a vida é foda pra caralho.

Bem, acho que agora fiz meu primeiro pronunciamento nas redes sociais sobre o valor da mulher. :)

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