o que eu gosto nas crianças — e eu realmente gosto delas — é o mesmo que todos as pessoas: a inocência. é encontrar em outros seres humanos (ou miniaturas destes) feitos também desta carne perecível, uma natureza que ainda não teve tempo de ser despedaçada por todas as vicissitudes do mundo. mesmo que com algumas os pais tentem, e às vezes até imponham pela força ou convivência, que ela se porte de alguma maneira particular, ou que prefira isso àquilo outro. lá no fundo elas ainda são capazes de acreditar em qualquer coisa. ainda se riem quando lhe falamos coisas absurdas, e ainda querem realmente saber o porquê das coisas. ainda não estão contaminadas com a ideia de que as coisas simplesmente são. e há as que choram e fazem alguma birra, exatamente por não entenderem como se dão as coisas no mundo. fazem birra como que pedindo ajuda: por favor me expliquem o porquê. isso é poético de uma maneira que os adultos já não mais alcançam. toda poesia mora nas crianças. toda nossa tentativa de escrevê-la vem da nossa necessidade de voltar a esse tempo em que realmente era possível ver as coisas pela primeira vez. desconfio sempre dos que não amam esses seres diminutos, e acredito que pequenos são eles, afinal. estes buscam somente estar junto a quem aceita o mundo pelo que é. já não buscam razões, nem mudanças. buscam somente mais daquilo a que já estão acostumados: seres domesticados por um mundo que já está por se acabar. as crianças são todo o mundo novo. elas são toda a possibilidade de entendermos as coisas, finalmente, como deveriam ser. elas são toda a possibilidade.

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