Rochas

Se não fossem essas rochas, essas fortalezas imutáveis e inabaláveis que são meu pai e minha mãe, o mundo já teria me engolido.

Eram rochas e me fizeram pássaro, amarrada bem de leve com uma corda imensa, que me permitia correr livre, mergulhar nas águas e testar vôos tranquilos. Permaneciam lá para tudo e sempre, mesmo quando eu tentava me livrar com toda veemência adolescente, mesmo quando eu “sabia” com todas as forças que precisava muito ver o mundo além desse limite, que eu precisava subir montanhas e mergulhar no fundo do oceano e conhecer geleiras e florestas e tudo que não existia naquele espaço seguro que me propiciavam.

De tanta certeza e insistência, eles me permitiram o corte, mesmo que a contragosto, só para que eu fosse feliz. Nunca me deram nada além de força e impulso, mesmo sabendo da realidade do mundo que eu só imaginava, pelo simples motivo de me permitirem sempre ser dona da minha própria história. Sempre falaram mas nunca exigiram que eu acreditasse em suas palavras quando diziam que o mar é escuro e cheio de tubarões, que as montanhas são bem íngremes e difíceis de serem alcançadas e que as geleiras matam igual o fogo quente.

Eu duvidei de tudo só porque era pássaro e não rocha. Achava que o mundo seria diferente só pra mim, que na verdade precisava descobrir tudo sozinha. E quando eu precisei voltar, quase me arrastando de tão cansada e mordida e queimada e tremendo de frio, eles continuavam lá, fortes, soberanos, sábios, prontos para me terem de volta e para amarrarem de novo a corda, a mesma que eu havia deixado de lado e que agora eu implorava que por favor me colocassem para que nada no mundo pudesse me levar pra longe daquilo que era o paraíso e eu não sabia. Eles continuavam rocha, firmes, e eu, que era só pedaços, pude me refazer e pude correr na areia e mergulhar somente no rasinho onde tudo era bom e se a maré tentasse me levar a corda me traria de volta.

Se não fossem as rochas, até onde eu teria flutuado? Se não fosse a constância das coisas antigas, onde teria me levado a sede por novidade? Hoje eu entendo e agradeço e me envergonho da erosão que provoquei quando esticava a corda até o seu último fio com a desculpa infantil de ser mais livre. Se eu soubesse como ser rocha, seria eu hoje uma também, mas ainda sou feita de penas e vento e preciso da corda como se fosse mesmo a minha linha de vida, como se cortá-la cortasse também um pedaço de mim. Ainda me
envergonho toda vez que chove e eles permanecem enquanto eu me escondo numa caverna qualquer. Tenho vergonha dos dias de sol que enfrentam enquanto eu saio em busca da sombra. Eu realmente me sinto a última criatura do universo quando chego perto e só vejo vindo deles a solidez e abertura e a felicidade REAL de poderem doar tudo de si pra uma criatura tão frágil e quebrável que se acredita mais do que realmente é.

Se não fossem pelas rochas que são meu pai e minha mãe, o mundo já teria me engolido.