Sobre amor, egoísmo e o texto do Duvivier

Eu nem ia falar nada, mas fiquei com aquela coisa engasgada quando li o famigerado texto do Gregório Duvivier.

Dá muita raiva de ver esses caras descoladinhos pagando de coitadinho pra geral falando de relacionamento. Ninguém para pra pensar que o motivo para que esse cara consiga ter essas lembranças maravilhosas e quase idílicas é porque ele não teve o seu coração estraçalhado em mil pedaços por aquela pessoa.

Fico pensando que é muita ironia uma pessoa que trai a outra, que coloca a pessoa “amada” numa situação de humilhação e dor, ir falar justamente sobre relacionamento. Fico de cara mesmo com a audácia que esses machos tem de sequer abrir a boca pra falar das pessoas que eles destruíram.

Mas o pior mesmo é ver as pessoas COMPRANDO essa ideia do homem coitadinho cheio de sentimentos. Fico puta. Porque pra mim é uma coisa pessoal também. Tive um namorado que no mesmo dia que acabou comigo, começou um relacionamento com outra moça e simplesmente desligou o celular por uma semana. Dois anos de relacionamento, e quando ocorre um fim (que foi bem tranquilo e de boa) o cara simplesmente decide que não tem mais nenhum débito emocional com aquela pessoa com quem se relacionava.

Por ele estar tão bem e feliz com sua própria vida, esquece que até um tempo atrás ele dividia a responsabilidade sobre a felicidade de outra pessoa. Aí depois disso vem querer falar do relacionamento. Vem dizer pros amigos que não entende porque a ex não quer manter uma amizade. Paga de bonzão e coitadinho ao mesmo tempo, e as pessoas ao redor acham lindo.

“Ai tadinho, também, aquela menina era meio louca né. O bixinho! Não tinha quem aguentasse ficar com ela. Aff, mas que menina imatura que não consegue manter amizade com ex.”

Sim, porque além de tudo a mulher tem a obrigação de engolir tudo e fingir que nada aconteceu porque senão é tachada de ruim ou imatura por não querer mais falar com um cara que a tratou mal. Mas não só um cara qualquer que a tratou mal, alguém a quem ela dedicou carinho e amor, alguém com quem ela aceitou se dividir, e que no final das contas resolveu que gostava mais de si mesmo e saiu.

Depois de tudo, resta lá a mulher em mil pedacinhos. Leva tempo pra se recuperar. Leva muito tempo pra saber que parte se encaixa onde, já que tudo caiu e se misturou. Fica difícil lidar com as memórias, com os sentimentos de humilhação e abandono. Fica difícil se olhar no espelho. E mesmo assim a gente continua vivendo, se guardando muito mais que antes e buscando fugir de qualquer coisa que leve de volta àquele lugar.

Todo esse universo de coisas acontecendo que se desencadearam a partir daquele relacionamento que o cara faz questão de dizer que era maravilhoso e amoroso. Eles sempre esquecem de falar dos escândalos, das infantilidades advindas do seu egoísmo, e é claro, das traições. Disso eles nunca falam.

Porque é meio como se os homens se achassem tão especiais e únicos que aceitam que para eles “é diferente”. Traição é só uma besteira. Foi só isso que ele fez? Ah, então tá de boa. Ninguém entende que não é o ato em si que causa tanto estrago, mas a quebra do contrato implícito entre duas pessoas. É a falta de sensibilidade para com a pessoa com que você havia se comprometido.

É você sustentar algo por anos, e um dia simplesmente soltar e sair de perto. Não ajuda a limpar, não ajuda a deixar nada como era antes. Simplesmente sai. Sai e depois vai ficar por aí contando lembranças boas daquele tempo que andava sustentando aquilo, sem nem lembrar que “aquilo” agora é um buraco vazio cercado de cacos ao chão.

Então da próxima vez que vocês lerem um texto ~romântico~ sobre um relacionamento antigo, se pergunte o porquê daquele relacionamento tão perfeito não existir mais. Se a resposta for “porque o autor do texto é um egoísta que só pensa no próprio pênis”, não compartilhe o texto, não chame de lindo e não confunda aquilo com amor. APRENDA: amor de verdade não machuca, não humilha e não abandona. Amor não dói, e é muito maior e mais complexo do que um monte de palavrinha clichê junta.