Sobre casamento, preconceito velado e amor

#lovewins

Sábado vou a um casamento. Nunca gostei muito dessas coisas de festona comemorativa pra casamento. Sempre achei um gasto desnecessário. Uma festa imensa pra todo mundo menos pros noivos. Estes ficam o tempo inteiro sorrindo pras pessoas e tirando fotos chatas em posições clichês para poderem mostrar depois que todo o investimento valeu a pena. É que pra mim, o casamento como festa era uma instituição banalizada, algo que era pra ser um divisão de alegria, acabava se tornando uma coisa meio robótica que as pessoas fazem mais pelas fotos do que por qualquer coisa. É porque virou mesmo uma daquelas coisas que as pessoas pensam que são obrigadas a fazer na vida. Só que esse casamento que vou no sábado me fez repensar um monte de coisas a respeito da instituição ‘casamento’ e do real motivo para a celebração do mesmo. É que o casamento que vou no sábado é entre dois homens. Aí o texto começa a ficar sério, né. Porque agora não estou falando mais de ‘casamento’. Agora estou falando do famigerado

C A S A M E N T O G A Y

Assim espaçado que é pra dar ênfase. Ninguém nunca para pra pensar que um CASAMENTO GAY é na verdade só um casamento, que um BEIJO GAY é na verdade só um beijo, e que uma PESSOA GAY é na verdade uma pessoa. O adjetivo GAY sempre tem que estar visível para que todos possam entender que aquela não é uma ação normal, aquela é uma ação gay. Como se os gays fossem uma outra espécie diferente da humana. Isso em si só já mostra que lugar da sociedade reservamos às pessoas homossexuais. Mantemos os homossexuais e seus desejos, sentimentos, e ações em gaiolas como num zoológico. ‘Aceitamos’ e achamos lindo, mas sempre à distância. Aquela velha história de pode ser gay, mas não perto de mim. Lembro de um comentário que ouvi uma vez de duas mulheres bem educadas, estudadas e de ~família nobre~ a respeito disso. A filha de uma amiga, veja só que absurdo, tinha acabado de se assumir. O que deveria, na minha cabeça, ser considerado como um gesto bonito e corajoso, foi tratado por sua família — e pelas pessoas do seu convívio social — como uma aberração. Essas duas mulheres falavam da família em questão em tom de luto. Falavam da mãe da menina com voz de pena, aquela que a gente usa pra falar das coisas e pessoas que não têm mais solução. É sapatão, a coitada. E fiquei sem entender o porquê do clima de morte e questionei qual era o problema. Elas me olharam em choque. Como assim eu não via o problema? Porque assim, elas mesmas não tinham ~nada contra~ mas ninguém DESEJA ISSO PRUM FILHO. Ouvi essa última parte em câmera lenta naquela voz grave que fica quando alguém desacelera um vídeo. Surreal. Amiga, ninguém deseja prum filho câncer, falta de inteligência, doença, problema financeiro ou que ele seja eleitor do Bolsonaro. O que essa frase quer dizer é que ninguém deseja prum filho algo ruim. Ser gay pra gente é sinônimo de problema. É quase como se fosse uma doença terrível ou um segredo de família que precisa ser sussurrado pelos cantos e nunca tratado abertamente. Seu filho é gay? Poxa, sinto muito. A gente trata a homossexualidade como algo alienígena, e isso precisa parar. Precisa parar porque essa história que eu contei não é uma exceção, mas a norma da nossa sociedade. Porque o comportamento dessas duas mulheres exemplifica nossa atitude diária a respeito da homoafetividade. E isso tá ficando cansativo, porque as pessoas fazem questão de não querer aprender nada novo. As pessoas acham que o mundo é fixo, e que cabe dentro das explicações que nossa mãe nos dá quando somos crianças. Ninguém percebe que o mundo é tão maleável que podemos moldá-lo com nossas próprias mãos. Não que ser gay seja uma novidade. Nunca foi nem nunca será, perguntem à Sócrates. O problema é que nossas regras sociais — que por sinal também são completamente criadas por nós mesmos — são incrivelmente engessadas. A gente tem muito medo do que os outros pensam. A gente tem muito medo de ser diferente em qualquer coisa. Aí a mulher que disse lá que não desejava isso pro filho ao ver minha cara de espanto emendou: não é por mim, eu não tenho nada contra, é porque as outras pessoas não vão entender e vão tratar mal e eu não quero isso. São sempre os outros os errados, os preconceituosos. A gente ainda é uma sociedade extremamente preconceituosa porque a gente se nega a sequer aceitar o nosso próprio preconceito. A gente se nega a admitir nossa própria ignorância. Porque no final das contas é disso que se trata: ignorância. E isso é foda, porque você não pode chegar simplesmente chamando a pessoa de burra e ela vai magicamente entender o que não entende (acreditem, eu tentei). Para que uma pessoa presa às amarras sociais se sinta à vontade de mudar o seu pensamento, é preciso fazer com que toda a sociedade mude de pensamento junto. Porque as pessoas amarradas socialmente sentem a necessidade de agir em bando. Elas se sentem desnorteadas quando precisam criar opiniões sozinhas. Então pra mudar a cabeça de um, precisamos mudar a de todos. E é por isso que esse casamento representa uma coisa muito linda e importante. Esse casamento demonstra que o amor é uma coisa muito maior do que qualquer outro sentimento, por mais forte que seja. O ódio destilado contra os gays nunca foi suficiente para suprimir o amor entre eles. Isso tem um poder imenso. Esse casamento é um ato político. Não é uma festa qualquer feita somente para manter aparências ou tirar fotos. É uma demonstração de resistência a uma norma social que insiste em oprimir e esmagar. É uma bela sambada na cara das pessoas-ovelha que ainda insistem em agir como bando por conveniência. A conquista do direito de poder celebrar o amor é um motivo de festa. Mas olha que coisa ridícula, a gente ter que lutar pra poder amar. Olha que coisa pequena é a gente ter que pedir permissão aos outros pra viver a nossa vida e construir nossos sonhos. Veja só que coisa patética é se ver com um alvo constante nas costas simplesmente por amar. Porque quando você é gay e se cansa de esconder, você automaticamente coloca sua cara a tapa para o mundo. E as pessoas batem, elas adoram. Elas falam de você pelas suas costas, em tom de luto ou de piada. Elas te diminuem e menosprezam seu valor como ser humano. Elas te enchem de opiniões e sugestões que não foram pedidas. Elas sentem pena e tentam ‘consolar’ seus pais. Elas te tratam como um doente. Elas questionam a sua fé, e te dizem que você é odiado por Deus. Elas te chamam de mau exemplo e te fazem carregar o fardo pesado da culpa (mesmo a culpa não sendo sua). Elas te fazem prestar atenção em cada movimento 24 horas por dia que é para não dar pinta nem demonstrar que se ama em público. Elas te perseguem, te batem e te matam. E depois ainda apontam o dedo pra dizer que a culpa disso tudo é sua. Como se um dia você tivesse acordado e escolhido passar por todas essas situações degradantes. Como se amor e desejo fossem simplesmente questão de escolha. Eu não consigo superar o fato de que o amor seja ilegal. Porque ainda é em muito canto do mundo e era aqui até ontem. Esse casamento é proibido em 73 países, e os envolvidos seriam sentenciados à morte em 13. Nadar contra essa maré de sangue é lutar pelo direito à felicidade plena. Fincar o pé no chão e não aceitar ser arrastado é uma demonstração de força e solidez. Por isso vou ao casamento do sábado, cheia de esperança e felicidade de poder presenciar essa vitória em meu tempo de vida. Comemoremos então o amor dos noivos e de todos aqueles que precisam ou precisaram amar em segredo. Que o amor nunca seja motivo de vergonha, e que o ódio nunca seja motivo de orgulho.