Sobre ensinar a pescar

Ando ouvindo muito das pessoas que são contra os programas de assistência que o governo deveria na verdade “ensinar a pescar”. Dizem isso com uma confiança de quem acabou de inventar a roda e solucionar todos os problemas do mundo. Acham que isso é o suficiente para desqualificar qualquer ajuda “dada”. Tem que ensinar a pescar.

Mas não se aprende a pescar em um dia. Enquanto o pai de família aprende a pescar, sua mulher e seus filhos vão comer o que? Enquanto ele entra lá no curso técnico oferecido pelo governo para aprender uma profissão, quem é que paga o transporte do seu filho pra escola? Quem é que paga a conta de luz? E a água?

Existem pessoas que precisam de ajuda AGORA. Não daqui a um ano de curso. AGORA. Porque simplesmente não tem o que comer! Como é que isso não é levado em consideração nesse tipo de argumento? Como é que a gente é tão egoísta ao ponto de pensar que gastar com quem não tem nada é “desperdício” do dinheiro público?

É claro que acredito sim que TAMBÉM se deve ensinar a pescar, claro! É necessário uma quebra no ciclo da pobreza e isso deve vir em forma de educação e oportunidades. Mas isso é resolução a longo prazo. Para que essa meta a longo prazo possa ser cumprida, é necessário dar aos mais pobres a oportunidade IMEDIATA de sair da pobreza extrema. Quer chamar de esmola? Chame. Eu chamo de empatia. Porque sou capaz de, por um segundo, me imaginar na pele do outro.

Ninguém passa fome porque quer. Ninguém prefere viver em estado de miséria. As pessoas não são pobres por serem “vagabundas”. Que pensamento odioso! Você já parou pra se ouvir (ou ler) falando isso? Que julgamento de toda uma classe de pessoas, simplesmente por PRECISAREM de algo que você não precisa. Que coisa terrível. Você que diz isso deveria sinceramente se envergonhar. Porque ninguém prefere viver sem esgoto ou água limpa em casa. Ninguém gosta de dizer pro filho que não tem comida hoje.

Aí tem ainda quem chegue e diga que “esse povo” (usando exatamente essa expressão) fica tendo filho só pra conseguir mais ajuda do governo. Quando eu ouço esse tipo de justificativa eu paro a discussão lá mesmo. Porque entendo que essa pessoa não tem a capacidade de reflexão necessária para discutir qualquer política pública que vise a erradicação da pobreza. Porque essa pessoa simplesmente não entende pobreza.

Uma pessoa tem que estar MUITO desesperada pra botar um filho no mundo pra ganhar míseros 35 reais por mês (77 quando vira adolescente). Quando foi a última vez que você saiu e, numa noite, gastou menos de 35 reais? Qual foi o último fim de semana que você passou que gastou menos do que 77 reais? Essas quantidades são tão irrisórias que chega a ser vergonhoso que você esteja sendo pão duro em relação a elas. O que você gasta na sua saída prum barzinho ou restaurante da moda é o equivalente a renda familiar MENSAL de muitas famílias no Brasil. Isso não te envergonha? Isso não te deixa mal? Porque isso me deixa doente.

Eu acho ridículo que no nosso país ainda existam pessoas que passem fome. Mais ridículo ainda é que no mesmo país existam pessoas ricas que ativamente se negam a ajudar os necessitados, e ainda inventam desculpas para parecer que têm razão. “Ah, mas eu trabalhei pra ter esse dinheiro”. Certo mas como foi sua educação? Como foi a sua infância? Tinha comida todo dia? Você frequentava a escola sem problemas? Se você trabalhou — e eu não estou negando isso — que tal oferecer aos outros a mesma oportunidade de trabalhar que você teve?

Porque uma pessoa em extrema pobreza não tem as qualificações necessárias nem tampouco as condições físicas (dinheiro pra transporte, saúde, aparência) de entrar no mercado de trabalho. Por isso a maioria vive de bico, ou de trabalho de rua, ou em situação de trabalhador explorado (cortadores de cana, por exemplo).

Existe um contexto imenso e bastante complicado por trás da pobreza. O que os programas de assistência fazem é simplesmente permitir que essas pessoas SOBREVIVAM e possam buscar uma melhora de vida, para si e principalmente para seus filhos. Porque família recebendo somente o bolsa família não vai sair da pobreza. Mas família que recebe assistência e com isso consegue mandar o filho pra escola e pra universidade sai da pobreza. Isso é ensinar a pescar!

É incrível como o pensamento de muita gente “educada” é pequeno e cheio de ódio. É incrível como as pessoas se sentem superiores ao pisar nas outras. Essa classificação de “vagabundo” de “esse povo” pra mim só denota um senso de superioridade barato, como se a pessoa precisasse se auto-afirmar como parte de uma classe superior. Ultimamente, com todas essas discussões de política, tenho sentido uma vergonha alheia ENORME, inclusive de pessoas que eu costumava admirar. Mas estou de mãos atadas. Não posso fazer nada além de falar e escrever mil vezes a mesma coisa. Mas até isso me parece em vão, porque nada muda.