Sobre ser e aparentar ser

Eu nunca entendi muito bem isso de querer ser rico. Nunca vi a necessidade de ter duas empregadas em casa, ou de usar roupas produzidas por uma determinada marca, nem muito menos a necessidade de mostrar pros outros tudo aquilo. Nunca entendi como funciona a mente de alguém que precisa disso para funcionar. Alguém que sente a necessidade quase física de trocar de carro mesmo o carro “antigo”ainda estando em perfeitas condições, que precisa ficar no camarote das festas “para não se misturar” ou que precisa mostrar o que tem o tempo inteiro. Nunca entendi o apelo de mostrar que se tem dinheiro. Não porque eu nunca tenha tido dinheiro, meus pais sempre tiveram boas condições e poderiam, se quisessem, me fornecer material suficiente para que eu me encaixasse no modelo citado acima. Mas eu não consigo fazer as coisas sem entender o propósito delas. Sempre achei idiota a ideia de se sentir melhor que alguém porque tem dinheiro. Sempre achei ridícula a necessidade de mostrar que está na moda, que pode comprar as roupas “que tá todo mundo usando”e que faz parte de tudo aquilo (mesmo não fazendo). Porque existem diversas maneiras de mostrar isso. Umas mais abertas, outras mais disfarçadas. Estas últimas sempre acompanhadas de desculpas perfeitas para dizer que “ah, eu tô fazendo isso porque gosto, não porque todo mundo está fazendo”. É como se mesmo no aproveitar da soberba desejada, houvesse um pingo de vergonha que impedisse as pessoas de escancararem com todas as letras que fazem aquilo para se sentir parte de um grupo “selecionado”. Nunca entendi muito bem qual a “seleção” que eles falavam. E depois de um tempo percebi que lugar “selecionado” ou “diferenciado” é lugar que não tem pobre. É o camarote, que mesmo ao lado da pista, sem a mínima diferenciação de aproveitamento da festa, custa o dobro ou o triplo desta, simplesmente para que seja possível colocar em um espaço só, todas aquelas pessoas que tem condições de pagar, excluindo aquelas que não podem. É uma gentrificação disfarçada de conforto. E as pessoas que compram estão apoiando aquela ideia, mesmo que disfarçadamente. É como se ser pobre fosse contagioso. Deus me livre olhar pro lado num show e encontrar uma pessoa pobre. Aqui em Natal tem muito disso né. Sinto uma vergonha alheia IMENSA dessas pessoas. Sinto mais vergonha ainda daquelas que, apesar de serem pobres, se matam para parecer que não são. Aquelas que são assalariadas como eu e você, mas que gastam todo o seu salário naquela blusinha de 900 reais que as blogueiras estão usando, ou na senha de um camarote “para não se misturar” (com seus iguais) ou daqueles que trocam o carrão e ficam devendo a Deus e o mundo. Entendo a pressão de não querer “ficar de fora” ou de ser tratado como menos. Mas acredito que nem isso justifique a quantidade de pessoas que realmente acreditam que para serem, ou parecerem melhor, precisam fingir que são uma coisa que não são. Me dá muita pena, pois as vejo como prisioneiras de um sistema que elas acreditam ser o único possível para sua vida. Porque imagino que essas pessoas não conhecem outras formas de vida, de convívio social que não hierarquizem todas as atividades do ser humano. E eu não estou falando aqui de socialismo nem nada disso. Estou falando em simplesmente não viver no mundo das aparências. Simplesmente entender que “cara de rica” não é elogio e que não ser rico não é um problema. Eu me desespero um pouco porque isso é a norma na nossa cidade. Eu detesto sentir pena, mas me pego com esse sentimento o tempo inteiro. Toda vez que tem uma nova “moda” — seja de roupa, de dieta, de local para frequentar — é constrangedor ver a quantidade de pessoas se matando para fazer parte daquilo. Juntando todo o seu dinheiro para gastar numa coisa supérflua, só para poder mostrar aos outros que tem. Querendo desesperadamente ganhar sua carteirinha de rico por osmose. Aí chega na moda política que tomou conta do Brasil. Aí você vê gente assalariada apoiando um projeto de governo que pretende diminuir a CLT e aumentar a terceirização em nome do empresário. Aí a pessoa que quer pagar de empresário, acaba fazendo campanha contra seus próprios interesses simplesmente para PARECER que faz parte do outro grupo. Ela vai atrás de demonstrar que não se importa com direitos do trabalhador — “coisa de pobrinho” — para poder ganhar cadeira cativa em um grupo do qual não faz parte. É tão patético que me dá vontade de chorar. O parecer ainda está muito acima do ser, e isso é preocupante. A gente desenvolve essa necessidade e alimenta isso nas pessoas mais jovens desde o tempo da escola. Se estuda em escola tal é uma pessoa a ser imitada, se não estuda não presta. Ou vocês acham que era coincidência que as pessoas “populares” eram sempre as pessoas mais ricas e dos melhores colégios? Estas eram as pessoas imitadas, as pessoas das quais todos queriam se aproximar. Porque elas APARENTAVAM ser algo que todas as pessoas queriam: ricas. Na minha época eram as meninas que faziam alisamento (quando era uma coisa rara e cara, lembram?), que usavam colcci e que ficavam no camarote das festas de axé/forró. Nosso mundo era minúsculo, e hoje eu acho graça porque eu fazia parte disso até certo ponto. Mas é estranho ver que existem pessoas adultas, mães e pais de família, que ainda não saíram dessa mentalidadezinha escolar. Estão sempre procurando os “populares” para que estes lhe digam como se comportar, o que vestir e onde ir. Como se nós não tivéssemos pensamentos e vontades individuais e precisássemos sempre tomar decisões em bando. É um comportamento tão perigoso quanto comum e isso é um problema para a estruturação da sociedade que vivemos. Porque isso é um ciclo. A gente joga nossas crianças dentro dele desde que elas nasceram, comprando pra elas os brinquedos da moda (mesmo que estes custem mais do que possamos pagar), vestindo-as com roupas de marca e passando a elas ideias de que só roupas desse tipo prestam, incentivando-as a imitar certos coleguinhas filhos de não sei quem. A socialização infantil da sociedade natalense é algo estarrecedor. Digo isso porque trabalho com adolescentes no meu dia-a-dia e já trabalhei com crianças também. São miniaturas daquilo que vivenciam em casa, e daquilo que é visto como valorizado. Então elas não tem nem a oportunidade de desenvolver um pensamento independente, porque são socializadas a seguirem sempre e nunca liderarem. A criança tem isso de querer fazer parte de um grupo, e não querer ser diferente de ninguém. É uma fase natural do desenvolvimento que é acentuada pela percepção dos pais sobre qual grupo sua criança deve fazer parte. E elas crescem e não conhecem nada do mundo além da esfera (minúscula diga-se de passagem) da zona sul da cidade onde vivem. Crescem e se tornam os mesmos adultos-zumbi que seus pais. Siga, obedeça, mostre. Aí temos esse ciclo vicioso pegajoso do qual poucas pessoas conseguem se afastar. Aí ficamos alimentando essas mesmas pequenices e colocando nelas um valor imenso, que elas na verdade não têm. E seria tudo lindo e na paz (cada um com seus cada quais) se isso não afetasse a vida em sociedade de todos, e principalmente as decisões tomadas no âmbito político, como eu já mencionei. Meu apelo então é para que quebremos o ciclo. Para que entendamos que rico não significa necessariamente bom. Que o nosso objetivo na vida não é fazer parte de grupo algum, ou demonstrar ser qualquer coisa que não somos. Queria que as pessoas conseguissem sair da bolha e enxergar as coisas de cima. Acho que é um tiro no escuro, mas fica aqui o meu apelo.