Vidro

Um dia acordei cercada de paredes de vidro, vivendo numa redoma sensível que chamam de pele. Tudo era reflexo e prisão. Não existia originalidade, não existia nada orgânico além de paredes geladas que percorriam a extensão do corpo no lugar do que deveria ser sensibilidade e aconchego. Ao mesmo tempo que me continham, para que tudo não saísse se espalhando pelo chão, elas me prendiam num só lugar impossível de escapar: eu. As marés do corpo iam e vinham e jamais transbordavam além do vidro, por isso ninguém percebia. Os monstros dançavam, comiam e se esbaldavam, mas como estavam dentro da prisão, ninguém de fora se afetava. O mundo as vezes acabava lá dentro, mas a vida do lado de fora seguia obrigatoriamente. Tudo ficava seco, escuro, doente e vazio, e tinha que se reinventar e se reconstruir sozinho. Todas as dores, toda a morte e toda a sujeira se faziam e se refaziam por conta própria. Ninguém ouvia, ninguém sentia. As paredes de vidro eram necessárias ao mundo de fora e cruéis pra quem estava lá dentro, desesperadamente tentando sair desse ciclo incessante de destruição silenciosa. Eram inquebráveis, infelizmente. Existiam com a função de barrar todas as forças da natureza, tinham o propósito de resistir. Eu, que ficava sempre dentro e nunca fora, ora me perdia nas correntezas, ora desistia em meio ao desespero, ora tentava contribuir pra que de alguma forma aquilo se tornasse um lugar habitável. Era uma série de fracassos diários e uma vontade imensa de não ser aquilo, de não fazer parte e de simplesmente quebrar tudo aquilo que me separasse da vida real. O vidro servia de mais uma provocação, porque mostrava o lado de fora e todas as suas possibilidades, enquanto encarcerava dentro de um mar de lama. Um dia acordei numa prisão de vidro, e tenho tentado escapar desde então.